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História da moda e do brechó #008

A história do brechó no Brasil: do século 19 a 1914

O comércio de roupa usada no Brasil: as lojas vigiadas do Rio no século 19 e o medo do contágio em São Paulo, de 1900 a 1914, segundo as pesquisas.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 7 min

Vestidos brancos antigos pendurados num cabideiro de madeira torneada.
Foto: Rene Terp / Pexels

Roupa usada circula no Brasil desde o período colonial, e as pesquisas históricas contam alguns momentos desse comércio. No Rio do século 19, segundo uma historiadora, as lojas vestiam pobres e remediados e eram vigiadas pela polícia. Em São Paulo, de 1900 a 1914, o medo do contágio empurrou a venda de roupa usada para lavanderias e lojas de fantasias.

Este guia conta o comércio, não a palavra: de onde vem "brechó" está no primeiro guia. Aqui entra só o que as pesquisas consultadas sustentam, e o que elas não cobrem fica dito.

Antes das lojas: roupa usada era bem de valor

No Brasil colonial, o dinheiro circulava pouco e o produto manufaturado, em geral importado, era caro. O Arquivo Nacional publica um texto de Maria do Carmo Rainho sobre a roupa no período joanino (de 1808 a 1821), e as notas dele explicam o efeito: a roupa era usada por muito tempo, até gastar, e mesmo velha entrava nos inventários como um bem, ainda que mais barato. Depois da avaliação, as peças eram vendidas ou doadas a parentes e amigos de quem morreu. A comercialização de bens usados, diz a nota, "era muito difundida".

Em São Paulo, a pesquisadora Lígia Guido, citada pela historiadora Rosangela Ferreira Leite, descreve o mesmo circuito para a capitania: as roupas de quem morria continuavam a vestir outras pessoas, doadas, arrematadas em leilão ou herdadas por filhos, netos e gente próxima.

O Rio do século 19: lojas que vestiam pobres e remediados

A pesquisa mais específica sobre o assunto é a da historiadora Joana Monteleone, apresentada em 2024 no Colóquio de Moda. Nos anais está publicado só o resumo, e é dele que vem o que segue.

Segundo o resumo, as lojas de roupa usada do Rio de Janeiro foram alvo de regulamentação, de sanções e de vigilância ao longo do século 19, porque muitas das coisas vendidas eram roubadas. No caso das roupas, escreve a autora, essas lojas serviam a um propósito: vestiam os pobres e os remediados. Por isso também havia vigilância da polícia, que ela lê como uma tentativa de controlar os corpos da população pobre.

Quanto a quem deu o nome às lojas, o resumo fala de um mascate chamado Belchior, que andava pelas ruas do Rio no início do século 19. O dicionário de 1889, de que falamos no primeiro guia, conta de um homem que abriu a primeira casa do ramo. As versões não batem e nenhuma traz documento. Por isso as fontes não permitem apontar um primeiro brechó, nem data, nem endereço.

O resumo não mostra as fontes primárias, e o texto completo não está nos anais. Este guia não traz, então, leis, datas nem nomes de lojas do Rio: seria inventar.

São Paulo, de 1900 a 1914: o medo do contágio

A historiadora Rosangela Ferreira Leite estudou, na revista Topoi (2021), como a roupa usada era vista em São Paulo entre 1900 e 1914. A fonte principal foi o jornal Correio Paulistano.

O ponto de partida é 1º de janeiro de 1900. Por ordens federais, passou a valer a desinfecção de passageiros e bagagens na Linha Férrea Central, e ficou proibido portar ou despachar uma lista de itens, entre eles "roupas de uso e seus acessórios". A notícia saiu ao lado da atualização dos casos de febre amarela. A ordem tratava de viagens de trem, e o artigo não registra proibição geral de vender roupa usada. Mas, segundo a autora, ao longo de 1900 o jornal foi transformando roupa em trapo e pano contaminado.

Em 1902 e 1903, a equipe do médico Emílio Ribas conduziu experimentos para mostrar que a febre amarela é transmitida por mosquito, e não pela roupa. Parte dos resultados saiu no Correio Paulistano de 28 de junho de 1903: três imigrantes recém-chegados dormiram num quarto vedado, com a estufa ligada, junto de toalhas, cobertores, lençóis e fronhas de doentes, e nenhum adoeceu.

O resultado médico não mudou o que o jornal contava. Para Leite, o imaginário social se concentrou nas roupas usadas, e a associação entre roupa velha, pobreza e contaminação recaiu sobre imigrantes, negros e pobres. A depreciação foi tão forte que, depois de 1903, descartar e perder roupa passou a ser mais frequente. A autora usa o serviço de achados e perdidos, criado em 1906, como indício: roupas e acessórios eram a maioria do que se anunciava, e em 3 de outubro de 1911 havia 1.740 objetos em depósito. Ela mesma avisa que a amostra, tirada de anúncios de jornal, é ilustrativa e não absoluta.

Os anúncios de leilão ajudam a ver a mudança. Como exemplo, Leite compara um leilão anunciado no Correio Mercantil, do Rio, em 1853, com roupas usadas entre os lotes, e outro no Correio Paulistano, em 1902, com 194 lotes e nenhuma peça de roupa. São dois anúncios, não uma contagem.

Para onde foi o comércio: lavanderias e lojas de fantasias

Segundo Leite, o comércio não acabou: ficou mais discreto. Lavanderias e tinturarias, cada vez mais comuns na cidade, passaram a vender roupa usada, e a propaganda de desinfecção que faziam ia ao encontro da ideia de que o tecido saía de lá livre de qualquer mal. Um exemplo que ela dá: um paletó em ótimo estado podia ser comprado na Tinturaria Eletricidade, na rua Florêncio de Abreu, número 13.

As lojas de fantasias entram na mesma história. Alugavam e vendiam trajes: na rua Líbero Badaró, número 9, dava para alugar desde um paletó até roupa de baile. A autora situa o público nos setores intermediários, que não eram ricos o bastante para ter empregada em casa nem pobres demais para pagar um serviço especializado, e que precisavam parecer apresentáveis em festas e eventos.

Ela descreve o que sobreviveu nesses espaços como um comércio disfarçado, em muitos casos conduzido por mulheres, e acrescenta que o disfarce reforçava a imagem de doença e de pobreza ligada à roupa de segunda mão. Nas conclusões, diz também que muitas lojas de objetos usados e muitas lavanderias continuaram vendendo roupa de segunda mão.

E depois de 1914?

As fontes lidas para este guia param aí. Nenhuma conta o comércio de roupa usada depois de 1914, e este guia não preenche o intervalo com o que circula sem fonte.

O mais próximo de hoje, entre as pesquisas consultadas, é um estudo de 2021 com 25 entrevistas em bairros populares de Belo Horizonte, de Marcelo de Rezende Pinto e outros. Nele, boa parte dos entrevistados não via dificuldade em a roupa ter sido usada por outras pessoas em outros contextos. Isso não prova que o medo acabou, nem que o de 1900 chegue até hoje em linha reta: é uma pesquisa de uma cidade, num contexto de baixa renda. O que se sabe sobre o medo de roupa usada fica para o guia Roupa usada faz mal?, e o cuidado com a peça, para o de como lavar roupa de brechó.

O que este guia não afirma

O que as fontes mostram, no conjunto

No período que as pesquisas cobrem, a roupa usada foi bem de inventário, mercadoria vigiada, risco sanitário e comércio discreto. O comércio mudou de lugar e de nome mais de uma vez, e o valor que se dava à roupa usada não foi o mesmo em todo o tempo.

Pontos importantes

Links de referência

  1. Monteleone, Uma história dos brechós no Rio de Janeiro do século XIX, resumo, Anais do Colóquio de Moda (ABEPEM), 2024
  2. Leite, Roupas de segunda mão: consumo, doença e descarte (São Paulo, 1900-1914), Topoi, 2021
  3. Rainho, A roupa e a moda no período joanino, Arquivo Nacional, História Luso-Brasileira, 2018
  4. Pinto, Zampier, Anjos e Ássimos, Nas teias da (re)significação: a vida social das roupas e a dinamicidade do mercado de segunda mão, Revista Gestão e Desenvolvimento, 2021
  5. Foto de capa: Rene Terp, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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