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História da moda e do brechó #012

Vintage, retrô ou só usada: como reconhecer uma peça vintage

O que o dicionário diz de vintage, retrô e usada e como um acervo de museu data uma roupa: o que cada sinal indica e quando ele engana.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 7 min

Vestido florido de época pendurado num armário, sob luz suave.
Foto: Lisa Fotios / Pexels

Vintage, retrô e usada respondem a perguntas diferentes. Pelo dicionário, vintage é o produto antigo e de excelente qualidade, retrô é o que imita um estilo passado, e usada é a peça que se desgastou pelo uso. Uma mesma roupa pode ser mais de uma dessas coisas, e nenhum dos dicionários consultados dá uma idade mínima para vintage; quem data uma roupa, num acervo de museu, junta sinais e compara com peças e catálogos datados.

O que o dicionário diz de cada palavra

Três perguntas, e uma peça pode responder a mais de uma

Lendo os verbetes juntos, dá para separar o que cada palavra pergunta: de que época e de que qualidade é a peça (vintage), de que estilo ela é (retrô) e em que estado ela chegou (usada). É uma leitura nossa dos verbetes, e ajuda a desfazer a confusão entre as três palavras.

Quantos anos para ser vintage?

O Priberam diz que vintage é antigo e não dá número. No manual de museu usado neste guia, a palavra vintage nem aparece: ele fala em investigar, datar e documentar. A regra dos 20 anos, que se repete em textos de venda de roupa de época, não está em nenhum dos dois dicionários nem nos documentos de museu consultados. É provável que seja uma convenção de mercado, e quem a usa decide onde pôr o corte.

Como um acervo de museu data uma roupa

Datar é rotina de acervo, e há manual. Usamos aqui o de Anthea Jarvis, de 2009, hospedado no arquivo da Museums Association, do Reino Unido: Investigating, Dating and Documenting Garments (investigar, datar e documentar roupas). Ele cobre roupa de 1700 a 2000, com a experiência de coleções britânicas. Serve como método, e não como tabela para a peça brasileira.

O roteiro é curto:

  1. Ver se a peça está completa e se as partes são do mesmo conjunto.
  2. Identificar o tecido, lembrando que forro e enfeites costumam ser de outro material.
  3. Ver como foi costurada: à mão, à máquina ou as duas coisas.
  4. Ver os fechos: botões, colchetes, zíper.
  5. Procurar etiqueta de fabricante ou de casa de moda.
  6. Procurar sinal de reforma: fileiras de furos de pontos desfeitos.

No Brasil, um trabalho apresentado em 2024 no Colóquio de Moda descreve o caso de uma blusa do acervo do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora (MG), sem data documentada. A pesquisadora Fernanda Ferreira de Mello comparou as características da peça com as ilustrações de catálogos da loja de departamentos francesa Au Bon Marché, para chegar a uma data mais aproximada. Só o resumo está publicado. O que ele mostra é o método: sem documento, data-se por comparação com referências datadas, e o resultado é aproximado.

O que cada sinal diz

O manual dá limites de época para alguns sinais. Eles funcionam como "não antes de", e não como a data da peça.

E a etiqueta brasileira? A etiqueta com composição e cuidados é obrigatória no Brasil pela Portaria Inmetro nº 118, de 2021. A página do Inmetro não diz desde quando a etiqueta é exigida, e por isso este guia não dá um ano de corte para a etiqueta brasileira. O que ela é obrigada a informar está no guia de como lavar roupa de brechó.

Quando o sinal engana

Por dois motivos.

O primeiro é a reforma. O manual lembra que roupa se refazia: pontos desfeitos aparecem no cós da saia, nas pences do busto, nas laterais e no decote, e sedas dos séculos 18 e 19 eram refeitas por décadas. Quando a moda mudava, a peça mudava junto. Por isso um fecho ou uma costura isolada pode ser mais recente que o resto: o manual diz, por exemplo, que ganchos e outros fechos em roupa feminina do século 18 são quase certamente acréscimos posteriores.

O segundo é a regra simples demais. O mesmo guia do V&A lista vestidos de 1935 a 1939 com zíper de plástico e um de cerca de 1949 com zíper de metal. São peças de alta-costura, de uma única estilista, e não mostram o que se fabricava em série, mas bastam para ver que "zíper de metal é antigo e zíper de plástico é novo" tem exceção.

Quando dois ou três sinais apontam para a mesma década, a data fica mais firme. Quando se contradizem, é provável que haja reforma ou que a peça seja nova, feita no estilo antigo, o que o dicionário chama de retrô. Essa leitura é nossa, a partir do que o manual diz de reformas e do que o dicionário diz de retrô.

Então, como reconhecer uma peça vintage?

Com o que as fontes sustentam, a resposta tem três partes:

  1. Vintage é questão de época e de qualidade, e o dicionário não fixa idade.
  2. A época se estima por um conjunto de sinais, comparados com peças e catálogos datados. Zíper, fibra e etiqueta dão o limite mais cedo possível.
  3. Sem documento, a data é aproximada. O próprio acervo escreve assim: o V&A data um vestido de noite de cerca de 1949.

O que este guia não afirma

Um exemplo de década

O primeiro guia da série sobre as décadas é o da moda dos anos 2000, que trata justamente de separar a peça da época da peça nova feita no estilo dela.

Pontos importantes

Links de referência

  1. Priberam, verbete vintage
  2. Priberam, verbete retrô
  3. Priberam, verbete usado
  4. Aulete Digital, verbete retrô
  5. Aulete Digital, verbete usado
  6. Jarvis, Manual: Investigating, Dating and Documenting Garments, 2009, Museums Association (Reino Unido)
  7. Mello, A datação de uma peça do acervo de indumentária do Museu Mariano Procópio, resumo, Colóquio de Moda (ABEPEM), 2024
  8. V&A, Schiaparelli: Fashion Becomes Art, guia da exposição em letras grandes
  9. Inmetro, quais são as informações obrigatórias no produto e na embalagem dos produtos têxteis
  10. Foto de capa: Lisa Fotios, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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