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Guia do brechó #017

Roupa usada faz mal? O que se sabe sobre os medos em torno dela

Roupa usada faz mal? O que pesquisas e fontes de saúde dizem sobre higiene, pele e procedência, e o que fica no campo da crença.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 6 min

Roupas coloridas num varal diante de uma casa de madeira, com duas cadeiras velhas embaixo.
Foto: Alina Autumn / Pexels

Depende do que se teme, e as fontes consultadas para este texto respondem só em parte. O receio de quem não compra segunda mão, numa pesquisa com 515 mulheres do interior paulista, é a higiene e a procedência da peça; documentos de saúde pública descrevem, para algumas doenças de pele, o contágio por objeto de quem está doente e o que o interrompe. Nenhum desses documentos mede o risco de vestir roupa de segunda mão, e as perguntas de crença, como a de a roupa "carregar energia", ficam fora do que se mede.

Quem tem esses medos, e quais são

A dissertação de Mariana Munis de Farias, da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), defendida em dezembro de 2016, aplicou um questionário on-line a 515 mulheres da Região Metropolitana de Campinas, do Circuito das Águas Paulistas e da Baixa Mogiana. A amostra é por conveniência: não representa as mulheres do país nem as da região.

Segundo a autora, as que não compram segunda mão temem a higiene e a procedência da peça. Na pergunta sobre por que não compram em brechó, que permitia mais de uma resposta, o motivo mais citado pelas gerações X e Y foi o medo da origem do produto quanto à higiene: não saber se quem usou estava doente, ou pegar algo do antigo dono. Por geração, apareceu assim:

A autora registra também respostas fora das alternativas. Uma entrevistada descreveu o medo da energia que a roupa carrega, não necessariamente da pessoa falecida, mas de quem já a usou. E há o outro lado: muitas mulheres que nunca compraram segunda mão se mostraram receptivas a experimentar, e algumas não sabem se há brechó na cidade.

O medo também não é universal. Num estudo etnográfico em bairros populares de Belo Horizonte, com 25 entrevistas, os autores anotam que boa parte dos entrevistados não tinha dificuldade com o fato de a roupa já ter sido usada por outras pessoas (Pinto e colegas, 2021).

De onde vem esse medo

O medo tem história. Rosangela Ferreira Leite, num artigo da revista Topoi, de 2021, parte dos experimentos de Emílio Ribas, em 1903, com roupas de doentes de febre amarela. Eles indicaram que as roupas não transmitiam a doença, cuja causa era o mosquito. Mesmo assim, o jornal paulistano que ela estudou, o Correio Paulistano, seguiu associando peça usada a contaminação. A história do brechó no Brasil está no guia A história do brechó no Brasil.

O que documentos de saúde pública descrevem

Vale separar duas perguntas: se algo passa de uma pessoa para outra por um objeto, e se vestir roupa de segunda mão em geral traz esse risco. Os documentos abertos para este texto tratam da primeira. Nenhum trata da segunda.

O Ministério da Saúde, nos Cadernos de Atenção Básica nº 9, Dermatologia na Atenção Básica de Saúde, de 2002, descreve:

Uma nota técnica de dezembro de 2022, elaborada pela Rede Trabalhadores & Covid-19 e publicada no portal da ENSP/Fiocruz, trata da sarna nos ambientes de trabalho. Segundo ela, o contágio ocorre por contato pele a pele, próximo e prolongado, ou por roupas ou objetos de contaminação recente, e o ácaro não sobrevive após três dias sem estar num hospedeiro humano.

O que isso quer dizer: o mecanismo existe, e por isso o receio de higiene tem base. Objeto de quem está doente pode levar o parasita ou o fungo. Mas os documentos falam do objeto de quem tem a doença e, no caso da sarna, de contaminação recente. Nenhum afirma, nem nega, que a roupa de segunda mão em geral transmita essas doenças. É uma pergunta que as fontes consultadas não respondem.

O que a lavagem faz, e o contexto em que isso foi dito

O manual da Anvisa sobre processamento de roupas de serviços de saúde, de 2009, registra que a ação antimicrobiana da lavagem vem da combinação de fatores mecânicos, térmicos e químicos, e que a diluição e a agitação da roupa removem substancial quantidade de microrganismos. No mesmo capítulo, diz que, apesar de a roupa suja de hospital ter muitos microrganismos patogênicos, o risco de transmissão de doenças é praticamente inexistente se ela for corretamente manipulada e processada.

É contexto de lavanderia hospitalar, com processo controlado, e não vale como regra para a roupa de casa. O mesmo vale para os documentos do Ministério e da Fiocruz, que tratam a lavagem em água quente e o ferro de passar como medidas de controle para a roupa de quem está com sarna ou com piolho. Para a sarna, o número é 55 °C ou mais. O contexto, de novo, é o de quem está doente.

Lavar a roupa de segunda mão em casa, o que a etiqueta permite e o que a umidade faz com o tecido estão no guia como lavar roupa de brechó.

As perguntas de crença

Há quem pergunte se roupa usada "carrega energia" ou se usar roupa usada "é pecado". A dissertação de 2016 mostra que perguntas desse tipo aparecem também em pesquisa: o medo de a peça ter sido de alguém que já morreu e o da energia que ela carregaria. São perguntas de crença e de religião, e cada pessoa e cada tradição responde por si. Nenhum documento de saúde pública as alcança, e este texto não as responde nem as mede.

Quem faz essas perguntas não está errado por perguntar. O que este guia faz é manter as duas perguntas separadas: a que se verifica, tratada acima, e a que cada um responde por si.

O que este texto não afirma

Pontos importantes

Links de referência

  1. Farias, Consumo consciente de moda e o metabolismo futuro do guarda-roupa, dissertação, UNIMEP, 2016
  2. Ministério da Saúde, Dermatologia na Atenção Básica de Saúde, Cadernos de Atenção Básica nº 9, 2002
  3. Rede Trabalhadores & Covid-19, Escabiose (sarna) nos ambientes de trabalho, nota técnica, ENSP/Fiocruz, 2022
  4. Anvisa, Processamento de roupas de serviços de saúde: prevenção e controle de riscos, 2009
  5. Leite, Roupas de segunda mão: consumo, doença e descarte (São Paulo, 1900-1914), Topoi, 2021
  6. Pinto, Zampier, Anjos e Ássimos, Nas teias da (re)significação, Revista Gestão e Desenvolvimento, 2021
  7. Foto de capa: Alina Autumn, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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