História da moda e do brechó #027
Moda dos anos 70: como era e o que ficou
A moda dos anos 70 não foi uma só: artesanato hippie, roupa unissex, jeans e noite. O que museus e estudos dizem, e o que a revista Pop mostra do Brasil.

A moda dos anos 70 não foi uma só. No começo, o artesanato da contracultura chegou à alta-costura; ao longo da década, a roupa unissex e o jeans ganharam espaço, e a noite ganhou cetim, lantejoula e brilho. No Brasil, as fontes abertas para este texto mostram a revista Pop, o jeans nacional e um desfile-protesto.
Por que "anos 70" não cabe numa imagem só?
A linha do tempo do Fashion Institute of Technology (FIT), de Nova York, diz que os tecidos sintéticos se espalharam tanto que a década ficou conhecida como a "Década do Poliéster". Mesmo assim, a mesma página descreve vários fios ao mesmo tempo, e vale separá-los pela data:
- Começo da década: o artesanato sobe para a alta-costura. Segundo o FIT, patchwork, crochê, tricô e bordado, que os hippies tinham adotado para rejeitar a moda dominante, entraram nas coleções de alta moda nos primeiros anos dos 70.
- 1971 e 1972: olhar para trás. Em 1971, Yves Saint Laurent apresentou a coleção Libération, inspirada nos anos 40, e causou alvoroço. Em 1972, Halston fez um vestido de ultrasuede que lembra os vestidos-camisa dos anos 50, atualizado pelo material. O FIT resume: de dia, a moda feminina olhava para os anos 40; à noite, aumentava o glamour.
- Meados da década: o punk de Londres. Para o FIT, em meados dos anos 70 alguns homens e mulheres de Londres passaram a chocar com o estilo punk, difundido por Vivienne Westwood e Malcolm McLaren.
- A noite: cetim, lantejoula e veludo. É o que, segundo o FIT, dominava a pista de dança. A página inclui nesse conjunto o vestido envelope, de Diane von Fürstenberg, que liga à liberdade sexual das mulheres.
Esses são recortes dos Estados Unidos e da Europa. O que as fontes brasileiras abertas mostram é outro conjunto.
O que era "unissex" na revista Pop?
A Pop, publicada pela Abril entre novembro de 1972 e agosto de 1979, em 82 edições, era dirigida a jovens a partir de 15 anos, sobretudo de camadas médias, segundo o estudo de Maureen Schaefer França e Marinês Ribeiro dos Santos, na revista dObra[s]. As autoras explicam que a moda unissex ganhou relevo a partir da segunda metade dos anos 1960: em 1967, um catálogo da Sears, nos Estados Unidos, trazia camisas e suéteres iguais para homens e mulheres, e em janeiro de 1970 o francês Jacques Esterel lançou uma coleção Unisex.
Na Pop, entre as peças que circularam como unissex estavam calças de brim azul desbotado, calças coloridas, camisetas, camisas, blusas de malha com gola rolê, cintos, jaquetas, macacões, bolsas, chapéus, tamancos e sapatos plataforma. A mais frequente era a jardineira, que as autoras escolheram analisar. A peça, lembram elas, era usada por trabalhadores americanos, brancos e negros, desde o século XIX, e foi adotada por jovens hippies e por parte do movimento pelos direitos civis. Na revista, marcas de roupa das petrolíferas Shell e Esso, a Top Pop Shell e a Unissex Esso 74, anunciaram macacões e jardineiras em 1973 e 1974.
As autoras fazem uma ressalva: nas fotografias da Pop, a jardineira "unissex" era vestida de modo diferente por garotas e garotos. Elas, com blusa por baixo; eles, muitas vezes sem. Para as autoras, a peça não funcionou do mesmo jeito nos dois corpos. É uma leitura sobre uma revista, não um retrato de tudo o que o Brasil vestia.
Como foi o jeans brasileiro dos anos 70?
A dissertação de Gisele Nepomuceno, da UFJF, conta parte da história do jeans nacional. Em 1972, segundo ela, a Alpargatas lançou a US TOP, com um anúncio em revistas juvenis que dizia "liberdade é uma calça velha, azul e desbotada". Segundo a autora, nos primeiros anos a Alpargatas foi a única fabricante desse denim no país. Em 1974, Sudantex, no Rio de Janeiro, e Santista, em São Paulo, também passaram a vender jeans azul desbotável, o que ampliou as cores e as texturas disponíveis. Em 1978, a Alpargatas começou a fazer tecidos mistos, como algodão com poliéster, usados em calças e jaquetas.
O resumo da dissertação acrescenta que, nos anos 1970 e 1980, a imagem do jeans nacional, antes ligada quase só às classes populares, passou a ser aceita em todas as classes e faixas etárias.
Um desfile-protesto em Nova York
Moda também foi forma de protesto. A dissertação de Lara Beatriz Joia, da Universidade Estadual de Londrina, analisa o desfile da estilista Zuzu Angel em Nova York, tido como o primeiro desfile-protesto da moda brasileira. Segundo a autora, o desfile aconteceu em 13 de setembro de 1971, na casa do cônsul brasileiro, em plena ditadura, quatro meses depois de o filho da estilista, Stuart Angel Jones, ter sido sequestrado. Entre as peças havia bordados de traços infantis, com casas, sóis e flores, misturados a temas mais densos, como vestimentas militares. Segundo Joia, o público e a imprensa americana entenderam as roupas como manifestação de luto e de oposição ao regime.
O que ficou registrado da década?
Nenhuma das fontes mede o que continuou sendo usado. O que elas registram como parte da década é:
- A roupa do dia a dia. O FIT registra que jeans, camisetas, camisas e suéteres eram usados por homens e mulheres, e que agasalho esportivo e tênis de corrida viraram roupa casual de todo dia.
- O jeans como produto industrial. No Brasil, Nepomuceno descreve uma indústria que se profissionalizou em torno dele.
- A moda com assunto. Joia trata a roupa do desfile de 1971 como documento histórico.
Como datar sem exagerar
Dizer "moda dos anos 70" sem data junta coisas de momentos diferentes: um desfile de 1971, um jeans lançado em 1972, uma jardineira anunciada em 1973, um vestido de Halston de 1972, o punk de meados da década. E "a moda do disco" é só um dos fios, o da noite. Para a diferença entre peça de época, estilo retrô e roupa só usada, veja Vintage, retrô ou só usada.
A década anterior está em Moda dos anos 60, e a seguinte, em Moda dos anos 80.
O que este texto não afirma
- Que os anos 70 sejam o disco. O FIT trata a pista de dança como uma parte.
- O que se vestia na rua, no Brasil. A Pop falava a jovens de camadas médias, e as fontes são de revista, indústria e passarela.
- O que voltou depois. Nenhuma fonte aberta para este texto mede isso.
- O ano em que o vestido envelope surgiu. A passagem do FIT consultada não dá essa data, e este texto também não.
Pontos importantes
- A linha do tempo do FIT chama a década de "Década do Poliéster", mas descreve vários fios: artesanato hippie, olhar para os anos 40, punk e pista de dança.
- A revista Pop (Abril, 1972 a 1979) mostrou roupa unissex, sobretudo a jardineira. As autoras notam que garotas e garotos a vestiam de modos diferentes.
- A Alpargatas lançou a US TOP em 1972. Em 1974, Sudantex e Santista passaram a vender jeans azul desbotável, segundo uma dissertação da UFJF.
- Em 13 de setembro de 1971, Zuzu Angel desfilou em Nova York uma coleção com temas militares bordados, tida como o primeiro desfile-protesto da moda brasileira.
- Cetim, lantejoula e veludo dominaram a pista, mas também se usavam jeans, camiseta, suéter e agasalho esportivo como roupa de todo dia, diz o FIT.
- As fontes tratam de revista, indústria e passarela. Elas não medem o que se vestia na rua no Brasil nem o que voltou depois.
Links de referência
- Fashion Institute of Technology (FIT), Fashion History Timeline, 1970-1979
- França e Santos, Moda unissex na Pop, primeira revista jovem do Brasil (anos 1970), dObra[s], n. 41, 2024
- Nepomuceno, O jeans e a cultura juvenil: contribuições possíveis sobre o crescimento da indústria de confecção no Brasil, dissertação, UFJF, 2017
- Joia, Caminhos, costuras e entremeios na moda política de Zuzu Angel: uma análise do desfile-protesto de 1971, dissertação, UEL, 2022
- Foto de capa: Romina Pachalian, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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Índice do blog
- #029Moda dos anos 60: como era e o que ficou
- #028Como tirar bolinha de roupa de lã, tricô e malha
- #027Moda dos anos 70: como era e o que ficouVocê está aqui
- #026Para onde vai a roupa descartada: lixo têxtil, reciclagem e impacto da moda
- #025Brechó masculino: o que olhar ao comprar roupa de homem usada
- #024Moda dos anos 80: como era e o que ficou
- #023Como desapegar de roupas: por onde começar
- #022Quantos brechós existem no Brasil? O número que se repete e o que ele mede
- #021Como tirar mancha antiga de roupa, e quando não insistir
- #020Moda dos anos 90: como era e o que dizem que voltou
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