História da moda e do brechó #029
Moda dos anos 60: como era e o que ficou
Como era a moda dos anos 60: boutiques para jovens, minissaia, PVC e vestido de papel, e o caminho próprio da fibra sintética e da Rhodia no Brasil.

A moda dos anos 60 foi a da roupa pensada para jovens: ganhou lojas próprias, barras curtas e materiais novos, do PVC ao poliéster. No Brasil, a fibra sintética chegou por outro caminho, o das campanhas de moda e dos desfiles-show da Rhodia. Este texto reúne o que museus e estudos publicados dizem sobre cada um dos dois lados.
Por que a moda dos anos 60 é lembrada como moda de jovens?
Segundo o V&A, museu de arte e design de Londres, no começo dos anos 60 a renda dos jovens estava no ponto mais alto desde o fim da Segunda Guerra, e a indústria passou a criar roupas para eles, em vez de copiar os estilos dos adultos. O lugar dessa mudança foi a boutique: uma loja pequena, de autosserviço, aberta em Londres por estilistas. O museu aponta Mary Quant e John Stephen como pioneiros do formato, com as primeiras lojas abertas em meados dos anos 1950, e cita a Kings Road e a Carnaby Street como o centro da imagem da "Swinging London".
A linha do tempo do Fashion Institute of Technology (FIT), de Nova York, vai na mesma direção. Ela descreve a Bazaar, loja de Quant, como parte do estilo novo das boutiques, um jeito revolucionário de comprar, diferente do ateliê tradicional e da loja de departamentos. E, para o FIT, os estilos mod e hippie fizeram a influência circular da rua para os estilistas, e não o contrário.
A minissaia foi de quem?
A minissaia virou o símbolo da década, e as fontes não fecham a autoria. A introdução do V&A aos anos 60 diz que a peça foi popularizada por Mary Quant. O texto do museu sobre a própria Quant vai além: afirma que ela costuma ser creditada como criadora, mas que não há evidência conclusiva de quem primeiro subiu a barra tanto acima do joelho, e cita o francês André Courrèges como outra possibilidade. No mesmo texto, as saias muito curtas viram marca de Quant e são popularizadas pela modelo Twiggy. A linha do tempo do FIT registra 1964 como o ano em que jovens estilistas, entre eles Quant e Courrèges, apresentam a minissaia e o minivestido.
Courrèges tem lugar à parte. O V&A descreve seus minivestidos e conjuntos de calça angulares como "Space Age", usados com botas baixas, óculos e capacetes, e o FIT fala da coleção de primavera/verão de 1964, com chapéus de astronauta e calças de PVC em branco e prata. Quant aparece no V&A também como criadora do hot pants, em 1966.
Plástico, PVC e vestido de papel
A roupa também mudou de matéria. O V&A lista o que os estilistas passaram a explorar: Perspex, PVC, poliéster, acrílico, náilon.
Um exemplo é o vestido descartável de papel. Pelo V&A, ele nasceu em 1966 como ação de marketing de uma empresa americana e seguiu popular até 1968. A curadora Jeanine Head Miller, do museu The Henry Ford, nos Estados Unidos, dá os detalhes: em abril de 1966, a Scott Paper Company lançou uma promoção ligada a uma nova linha de produtos de papel e recebeu quase meio milhão de pedidos de vestidos até o fim do ano; em junho, a Mars of Asheville, fabricante de meias, lançou a linha Waste Basket Boutique. Segundo ela, as pessoas compraram mais de um milhão de peças de papel entre 1966 e 1968. No início de 1968 a moda começou a esfriar: o papel não era prático nem confortável para o uso diário, e os valores do movimento hippie, de volta à natureza e contra a poluição, também pesaram.
E no Brasil? A fibra sintética chegou com publicidade
A história no Brasil tem outro eixo. Segundo a historiadora Maria Claudia Bonadio, em artigo de 2009 na revista Mosaico, da PUC Goiás, em 1958 a Rhodia, filial brasileira da francesa Rhône-Poulenc, obteve a exclusividade das patentes para fiar poliéster no país. Pelos dados do Ipea que ela reúne, o consumo aparente de fibras sintéticas no Brasil passou de 5.731 toneladas em 1960 para 15.041 em 1965 e 56.640 em 1970. Bonadio observa que o preço final dos fios sintéticos era menor que o das fibras naturais, o que os tornou acessíveis às camadas médias e ampliou o guarda-roupa, sobretudo no então incipiente mercado de roupa pronta.
Para criar esse mercado, a Rhodia apostou em publicidade e em espetáculo. A equipe da Standard Propaganda, coordenada por Lívio Rangan, gerente de publicidade da empresa, produzia fotografias de moda para anúncios, editoriais e reportagens em volume que chegava a até 60 páginas, e desfiles que misturavam moda e música na Fenit, a Feira Nacional da Indústria Têxtil. Até o fim dos anos 1950, observa Bonadio, eram raras as produções de moda feitas no país: a maior parte das fotografias das revistas era comprada de agências internacionais.
As coleções da "Seleção Rhodia Moda" ganharam nomes em inglês de sabor brasileiro: Brazilian Nature (1962), Brazilian Look (1963), Brazilian Style (1964), Brazilian Primitive (1965) e Brazilian Fashion Team (1966). Os modelos eram encomendados a costureiros brasileiros e estrangeiros, e as estampas, a artistas plásticos. Essas peças não eram vendidas: serviam, diz Bonadio, para agregar valor às marcas da empresa.
O que sobrou dessa produção está no MASP: 79 peças selecionadas por Pietro Maria Bardi, diretor-fundador do museu, e doadas pela Rhodia em 1972. Segundo o museu, é o que restou dessa produção, de roupas feitas sob medida e só para promover a marca. Os desfiles-show, informa o MASP, chegavam a exibir até 150 peças, com duas coleções por ano que circulavam pelo Brasil e pelo exterior.
Duas ressalvas de quem estudou o material. Na resenha da exposição, Mylene Mizrahi nota um detalhe de autoria: nas legendas, os artistas que criaram as estampas aparecem em destaque, e o estilista da peça consta, repetidas vezes, como "desconhecido". E, em outro estudo, Bonadio mostra que, em meados dos anos 1960, a Rhodia foi pioneira ao incluir modelos negras em campanhas de moda impressas, numa época em que pessoas negras apareciam pouco na publicidade brasileira.
O que mudou no fim da década?
O V&A descreve outra direção nos últimos anos dos 60: o movimento hippie da Califórnia cruzou o Atlântico, a moda buscou inspiração na cultura oriental e as roupas ficaram longas, soltas e em camadas, inspiradas em estilos de segunda mão, ou "vintage". Em Londres, o Kensington Market virou ponto de jovens atrás de um visual alternativo. O FIT soma a saia que desce até a panturrilha e, em 1969, a saia longa, e lista a roupa de segunda mão entre as influências do estilo hippie.
O que ficou da década, segundo as fontes?
Nenhuma das fontes mede o que continuou sendo usado. O que elas descrevem, como começo de algo, é:
- A boutique e o consumidor jovem. Para o V&A, a indústria passou a criar para jovens com renda, em vez de copiar os estilos dos adultos.
- A moda que sobe da rua. É a leitura do FIT para os estilos mod e hippie.
- No Brasil, a moda como campo profissional. Na resenha do livro de Bonadio, Joana Bosak de Figueiredo escreve que, quando o fio sintético dá lugar ao prêt-à-porter feito no Brasil, se considera constituído o campo da moda no país, com mais visibilidade para os estilistas e para a roupa com autoria.
Como datar sem exagerar
Duas cautelas. A primeira: "anos 60" cobre estilos quase opostos. O FIT descreve, no começo da década, o visual comportado e elegante que Jacqueline Kennedy simbolizava, de tailleurs, vestidos de linha reta ou em A, luvas brancas e pérolas, feito por casas como Givenchy e Balenciaga. No fim, vêm a saia longa e o estilo hippie. A segunda: minissaia, Courrèges, vestido de papel e hot pants são de meados da década, não do começo.
Para entender a diferença entre peça de época, estilo retrô e roupa só usada, veja Vintage, retrô ou só usada. E a década seguinte, com outro fio de história, está em Moda dos anos 70.
O que este texto não afirma
- O que se vestia na rua, no Brasil, nos anos 60. As fontes abertas para este texto tratam de publicidade, de passarela e de acervo de museu. A Rhodia é uma parte da história, não a moda brasileira inteira.
- Quem inventou a minissaia. O que há é o que cada fonte credita, e elas divergem.
- O que "voltou" depois. Não há aqui medida de uso, e este texto não faz a lista.
Pontos importantes
- Nos anos 60 a indústria passou a criar para jovens, e a boutique virou o lugar de comprar. Quant e John Stephen abriram as suas em meados dos anos 1950 (V&A).
- A autoria da minissaia é disputada. O V&A diz que Quant a popularizou e que não há evidência conclusiva de quem encurtou a barra primeiro.
- O vestido de papel nasceu em 1966 como ação de marketing nos EUA, e a moda esfriou no início de 1968, segundo o museu The Henry Ford.
- No Brasil, a Rhodia vendeu a fibra sintética com editoriais e desfiles-show na Fenit. O MASP guarda 79 peças dessa produção, doadas em 1972.
- Dados do Ipea reunidos por Bonadio: o consumo aparente de fibras sintéticas no país foi de 5.731 toneladas em 1960 e de 56.640 em 1970.
- As fontes tratam de passarela, de publicidade e de acervo. Elas não medem o que se vestia na rua no Brasil dos anos 60.
Links de referência
- V&A, An introduction to 1960s fashion
- V&A, Introducing Mary Quant
- Fashion Institute of Technology (FIT), Fashion History Timeline, 1960-1969
- The Henry Ford, Jeanine Head Miller, "Pulp Fashion": Paper Dresses of the 1960s, 2020
- Bonadio, A "revolução no vestuário": publicidade de moda, nacionalismo e crescimento industrial no Brasil dos anos 1960, Revista Mosaico, 2009
- MASP, Arte na Moda: Coleção MASP Rhodia, 2015-2016
- Mizrahi, As roupas, as coisas e os conceitos: notas exploratórias sobre uma exposição de arte, dObra[s], 2016
- Bonadio, As modelos negras na publicidade de moda no Brasil dos anos 1960, Visualidades, 2012
- Figueiredo, Resenha: Moda e publicidade no Brasil nos anos 1960, Revista Práksis, 2017
- Foto de capa: Budget Bizar, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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Índice do blog
- #029Moda dos anos 60: como era e o que ficouVocê está aqui
- #028Como tirar bolinha de roupa de lã, tricô e malha
- #027Moda dos anos 70: como era e o que ficou
- #026Para onde vai a roupa descartada: lixo têxtil, reciclagem e impacto da moda
- #025Brechó masculino: o que olhar ao comprar roupa de homem usada
- #024Moda dos anos 80: como era e o que ficou
- #023Como desapegar de roupas: por onde começar
- #022Quantos brechós existem no Brasil? O número que se repete e o que ele mede
- #021Como tirar mancha antiga de roupa, e quando não insistir
- #020Moda dos anos 90: como era e o que dizem que voltou
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