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História da moda e do brechó #029

Moda dos anos 60: como era e o que ficou

Como era a moda dos anos 60: boutiques para jovens, minissaia, PVC e vestido de papel, e o caminho próprio da fibra sintética e da Rhodia no Brasil.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 8 min

Tecidos com estampas geométricas em vermelho, branco e azul-marinho, em close.
Foto: Budget Bizar / Pexels

A moda dos anos 60 foi a da roupa pensada para jovens: ganhou lojas próprias, barras curtas e materiais novos, do PVC ao poliéster. No Brasil, a fibra sintética chegou por outro caminho, o das campanhas de moda e dos desfiles-show da Rhodia. Este texto reúne o que museus e estudos publicados dizem sobre cada um dos dois lados.

Por que a moda dos anos 60 é lembrada como moda de jovens?

Segundo o V&A, museu de arte e design de Londres, no começo dos anos 60 a renda dos jovens estava no ponto mais alto desde o fim da Segunda Guerra, e a indústria passou a criar roupas para eles, em vez de copiar os estilos dos adultos. O lugar dessa mudança foi a boutique: uma loja pequena, de autosserviço, aberta em Londres por estilistas. O museu aponta Mary Quant e John Stephen como pioneiros do formato, com as primeiras lojas abertas em meados dos anos 1950, e cita a Kings Road e a Carnaby Street como o centro da imagem da "Swinging London".

A linha do tempo do Fashion Institute of Technology (FIT), de Nova York, vai na mesma direção. Ela descreve a Bazaar, loja de Quant, como parte do estilo novo das boutiques, um jeito revolucionário de comprar, diferente do ateliê tradicional e da loja de departamentos. E, para o FIT, os estilos mod e hippie fizeram a influência circular da rua para os estilistas, e não o contrário.

A minissaia foi de quem?

A minissaia virou o símbolo da década, e as fontes não fecham a autoria. A introdução do V&A aos anos 60 diz que a peça foi popularizada por Mary Quant. O texto do museu sobre a própria Quant vai além: afirma que ela costuma ser creditada como criadora, mas que não há evidência conclusiva de quem primeiro subiu a barra tanto acima do joelho, e cita o francês André Courrèges como outra possibilidade. No mesmo texto, as saias muito curtas viram marca de Quant e são popularizadas pela modelo Twiggy. A linha do tempo do FIT registra 1964 como o ano em que jovens estilistas, entre eles Quant e Courrèges, apresentam a minissaia e o minivestido.

Courrèges tem lugar à parte. O V&A descreve seus minivestidos e conjuntos de calça angulares como "Space Age", usados com botas baixas, óculos e capacetes, e o FIT fala da coleção de primavera/verão de 1964, com chapéus de astronauta e calças de PVC em branco e prata. Quant aparece no V&A também como criadora do hot pants, em 1966.

Plástico, PVC e vestido de papel

A roupa também mudou de matéria. O V&A lista o que os estilistas passaram a explorar: Perspex, PVC, poliéster, acrílico, náilon.

Um exemplo é o vestido descartável de papel. Pelo V&A, ele nasceu em 1966 como ação de marketing de uma empresa americana e seguiu popular até 1968. A curadora Jeanine Head Miller, do museu The Henry Ford, nos Estados Unidos, dá os detalhes: em abril de 1966, a Scott Paper Company lançou uma promoção ligada a uma nova linha de produtos de papel e recebeu quase meio milhão de pedidos de vestidos até o fim do ano; em junho, a Mars of Asheville, fabricante de meias, lançou a linha Waste Basket Boutique. Segundo ela, as pessoas compraram mais de um milhão de peças de papel entre 1966 e 1968. No início de 1968 a moda começou a esfriar: o papel não era prático nem confortável para o uso diário, e os valores do movimento hippie, de volta à natureza e contra a poluição, também pesaram.

E no Brasil? A fibra sintética chegou com publicidade

A história no Brasil tem outro eixo. Segundo a historiadora Maria Claudia Bonadio, em artigo de 2009 na revista Mosaico, da PUC Goiás, em 1958 a Rhodia, filial brasileira da francesa Rhône-Poulenc, obteve a exclusividade das patentes para fiar poliéster no país. Pelos dados do Ipea que ela reúne, o consumo aparente de fibras sintéticas no Brasil passou de 5.731 toneladas em 1960 para 15.041 em 1965 e 56.640 em 1970. Bonadio observa que o preço final dos fios sintéticos era menor que o das fibras naturais, o que os tornou acessíveis às camadas médias e ampliou o guarda-roupa, sobretudo no então incipiente mercado de roupa pronta.

Para criar esse mercado, a Rhodia apostou em publicidade e em espetáculo. A equipe da Standard Propaganda, coordenada por Lívio Rangan, gerente de publicidade da empresa, produzia fotografias de moda para anúncios, editoriais e reportagens em volume que chegava a até 60 páginas, e desfiles que misturavam moda e música na Fenit, a Feira Nacional da Indústria Têxtil. Até o fim dos anos 1950, observa Bonadio, eram raras as produções de moda feitas no país: a maior parte das fotografias das revistas era comprada de agências internacionais.

As coleções da "Seleção Rhodia Moda" ganharam nomes em inglês de sabor brasileiro: Brazilian Nature (1962), Brazilian Look (1963), Brazilian Style (1964), Brazilian Primitive (1965) e Brazilian Fashion Team (1966). Os modelos eram encomendados a costureiros brasileiros e estrangeiros, e as estampas, a artistas plásticos. Essas peças não eram vendidas: serviam, diz Bonadio, para agregar valor às marcas da empresa.

O que sobrou dessa produção está no MASP: 79 peças selecionadas por Pietro Maria Bardi, diretor-fundador do museu, e doadas pela Rhodia em 1972. Segundo o museu, é o que restou dessa produção, de roupas feitas sob medida e só para promover a marca. Os desfiles-show, informa o MASP, chegavam a exibir até 150 peças, com duas coleções por ano que circulavam pelo Brasil e pelo exterior.

Duas ressalvas de quem estudou o material. Na resenha da exposição, Mylene Mizrahi nota um detalhe de autoria: nas legendas, os artistas que criaram as estampas aparecem em destaque, e o estilista da peça consta, repetidas vezes, como "desconhecido". E, em outro estudo, Bonadio mostra que, em meados dos anos 1960, a Rhodia foi pioneira ao incluir modelos negras em campanhas de moda impressas, numa época em que pessoas negras apareciam pouco na publicidade brasileira.

O que mudou no fim da década?

O V&A descreve outra direção nos últimos anos dos 60: o movimento hippie da Califórnia cruzou o Atlântico, a moda buscou inspiração na cultura oriental e as roupas ficaram longas, soltas e em camadas, inspiradas em estilos de segunda mão, ou "vintage". Em Londres, o Kensington Market virou ponto de jovens atrás de um visual alternativo. O FIT soma a saia que desce até a panturrilha e, em 1969, a saia longa, e lista a roupa de segunda mão entre as influências do estilo hippie.

O que ficou da década, segundo as fontes?

Nenhuma das fontes mede o que continuou sendo usado. O que elas descrevem, como começo de algo, é:

Como datar sem exagerar

Duas cautelas. A primeira: "anos 60" cobre estilos quase opostos. O FIT descreve, no começo da década, o visual comportado e elegante que Jacqueline Kennedy simbolizava, de tailleurs, vestidos de linha reta ou em A, luvas brancas e pérolas, feito por casas como Givenchy e Balenciaga. No fim, vêm a saia longa e o estilo hippie. A segunda: minissaia, Courrèges, vestido de papel e hot pants são de meados da década, não do começo.

Para entender a diferença entre peça de época, estilo retrô e roupa só usada, veja Vintage, retrô ou só usada. E a década seguinte, com outro fio de história, está em Moda dos anos 70.

O que este texto não afirma

Pontos importantes

Links de referência

  1. V&A, An introduction to 1960s fashion
  2. V&A, Introducing Mary Quant
  3. Fashion Institute of Technology (FIT), Fashion History Timeline, 1960-1969
  4. The Henry Ford, Jeanine Head Miller, "Pulp Fashion": Paper Dresses of the 1960s, 2020
  5. Bonadio, A "revolução no vestuário": publicidade de moda, nacionalismo e crescimento industrial no Brasil dos anos 1960, Revista Mosaico, 2009
  6. MASP, Arte na Moda: Coleção MASP Rhodia, 2015-2016
  7. Mizrahi, As roupas, as coisas e os conceitos: notas exploratórias sobre uma exposição de arte, dObra[s], 2016
  8. Bonadio, As modelos negras na publicidade de moda no Brasil dos anos 1960, Visualidades, 2012
  9. Figueiredo, Resenha: Moda e publicidade no Brasil nos anos 1960, Revista Práksis, 2017
  10. Foto de capa: Budget Bizar, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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