Moda circular: dados e mercado #011
Quem compra em brechó, e por quê: o que as pesquisas mediram
O que quatro pesquisas brasileiras, de 2015 a 2025, mediram sobre quem compra em brechó, o que leva à compra e por que muita gente nunca foi.

Nas quatro pesquisas brasileiras que este guia reúne, o motivo de compra mais citado é econômico: o preço mais baixo, o ganho, a chance de comprar mais peças. Onde o consumo consciente foi medido, ele vem depois. Entre quem nunca comprou, a razão mais citada, numa pesquisa de 2022, foi não conhecer nenhum brechó.
Os estudos são poucos e as amostras, diferentes entre si; por isso o guia diz, de cada um, quem respondeu, onde e quando.
Por que se compra em brechó?
Em 2025, o Sebrae-SP ouviu 400 consumidores de brechó, entre 23 de abril e 4 de maio. Segundo a matéria que divulgou a pesquisa, os principais motivos são os preços mais baixos (71%), a qualidade dos produtos (45%) e a sustentabilidade aliada ao consumo consciente (43%). Os três somam mais de 100%, o que sugere que cada pessoa podia citar mais de um. Na mesma pesquisa, 42% citaram roupas de grife entre os itens mais procurados, 32% disseram comprar a cada dois meses e 22%, uma vez por semestre. A matéria não informa onde moram os 400 entrevistados nem a margem de erro.
O levantamento de pesquisadoras do IFMG, também de 2025, pediu a motivação principal. Entre as mulheres de 25 a 44 anos que compram ou já compraram em brechó, 41,04% responderam preços mais baixos; 23,88%, consumo consciente e sustentável; 16,42%, marcas caras por preços mais acessíveis; e 13,43%, peças exclusivas ou de estilo vintage e retrô. O trabalho não informa quantas mulheres formam esse grupo, que é um recorte das 389 respostas. Para homens e mulheres, conclui, o preço mais baixo vem primeiro e o consumo consciente, depois.
Em 2022, o trabalho de graduação de Juliana Batista da Silva, da UFPB, perguntou a 110 pessoas que já compravam em brechó o quanto concordavam com algumas frases, numa escala de 0 a 5. A do ganho econômico e da possibilidade de comprar mais peças teve média 4,33; a do vestuário diferente e exclusivo, 3,26. O questionário também perguntou sobre sustentabilidade, mas o trabalho não mostra esse resultado. O documento é um plano de negócios para um brechó do Recife; só a pesquisa de mercado entra aqui, e as projeções financeiras ficam de fora.
Em 2015, Luísa de Melo Matos e José Geraldo Pereira Barbosa, da UNIRIO, usaram frases parecidas, numa escala de 1 a 5, com 60 consumidores do Rio de Janeiro. A frase sobre ganho econômico e possibilidade de comprar mais peças teve média 4,07; a sobre peças diferentes e exclusivas, 3,02; a sobre valorizar a sustentabilidade, 2,97, que os autores descrevem como neutralidade.
Os métodos e os lugares são diferentes, e a ordem se repete. A sustentabilidade não some das respostas, com 43% numa pesquisa e o segundo lugar em outra, mas, onde foi medida, vem depois do preço.
O que pesa na escolha, além do preço
Na pesquisa do Rio, as médias mais altas do estudo inteiro não foram de motivo de compra, e sim de expectativa sobre o brechó: o cuidado com as roupas e acessórios, a limpeza e a boa organização do espaço (médias de 4,42 a 4,73). Na preferência por tipo de brechó, o de peças de boa qualidade (4,40) ficou acima do de peças baratas (3,65), do de grife (3,03) e do de peças de época, o vintage (2,53).
Os 60 respondentes foram recrutados em grupos de redes sociais sobre brechós. É provável, portanto, que sejam pessoas que já frequentam, e não quem nunca entrou numa loja.
Quem compra em brechó?
As pesquisas descrevem melhor quem respondeu do que quem compra. No Rio, 59 dos 60 respondentes eram mulheres, e 52% tinham de 18 a 25 anos. No IFMG, 77,38% das 389 respostas vieram de mulheres, e 73,87% das pessoas disseram ter o hábito de comprar em brechó ou já ter comprado. Nos dois casos, o questionário circulou por rede social e por WhatsApp, entre quem estava ao alcance de quem o divulgou. Os próprios autores do IFMG registram que o formato on-line pode limitar o recorte de público. Por isso essas proporções não valem para o país.
Para a pergunta de onde as pessoas preferem comprar, loja física ou internet, o dado está no primeiro guia. A dificuldade mais citada no levantamento do IFMG, achar tamanho e variedade, está no guia de tamanhos.
Quem nunca comprou, e por quê?
A pergunta inversa aparece na mesma pesquisa da UFPB, feita em 2022 por formulário on-line, divulgado por WhatsApp e entre as clientes da loja. Ela ouviu 170 pessoas: as 110 que já compravam e 60 que nunca tinham comprado.
Entre as 60, a razão mais citada foi não conhecer nenhum brechó: 28 pessoas, 47%. Depois vieram a falta de confiança, com 17%; "não uso roupas usadas", também 17%; e nunca ter tido interesse, 10%. A autora lê o primeiro resultado como falta de visibilidade dos brechós.
Dois cuidados. A amostra é pequena e foi alcançada por WhatsApp e pela própria loja, o que torna provável que inclua gente já próxima de brechó. E o documento é um trabalho de graduação, não um estudo publicado em periódico.
O que essas pesquisas não dizem
- Não são retrato do país. Nenhuma informa ter sorteado a amostra, e os lugares e os anos mudam: o Rio em 2015, o Recife em 2022, 17 estados, sobretudo Minas Gerais, em 2025 e, noutra pesquisa de 2025, um lugar que nem é informado.
- Motivo declarado não é compra medida. As quatro perguntaram às pessoas por que compram ou deixam de comprar; nenhuma mediu o que elas levaram para casa.
- As perguntas não são iguais. Uma parece ter aceitado mais de um motivo (os percentuais passam de 100%), outra pediu o principal, e duas usaram escalas de concordância, uma de 1 a 5 e outra de 0 a 5. Por isso os números de uma pesquisa não se somam nem se comparam, linha a linha, com os de outra. O que se compara é a ordem.
Quem quiser saber de quantas lojas se fala quando se diz "o mercado de brechós" encontra a conta no guia sobre quantos brechós existem no Brasil.
Pontos importantes
- Em quatro pesquisas brasileiras, de 2015 a 2025, o motivo de compra mais citado foi econômico. Nas que mediram o consumo consciente, ele vem depois.
- Numa pesquisa do Sebrae-SP de 2025, com 400 consumidores: preços mais baixos, 71%; qualidade dos produtos, 45%; sustentabilidade e consumo consciente, 43%.
- Num levantamento do IFMG de 2025, entre mulheres de 25 a 44 anos, 41,04% citaram o preço como motivação principal e 23,88%, o consumo consciente.
- Das 60 pessoas que nunca compraram, ouvidas numa pesquisa de 2022, 47% disseram não conhecer nenhum brechó. Outros 17% disseram não usar roupa usada.
- As amostras são pequenas e, nas que informam o método, foram alcançadas por redes sociais e WhatsApp. Valem como indício de cada grupo, não do país.
Links de referência
- Agência Sebrae SP, matéria sobre a pesquisa Brechós 2025, do Sebrae-SP, 24/09/2025
- Macedo Menezes e outras, Compra em brechó: motivações e desafios para o consumo de moda circular, IFMG, 2025
- Matos e Barbosa, Um estudo sobre o perfil dos consumidores de brechós da Cidade do Rio de Janeiro, PMKT, UNIRIO, 2016
- Silva, Plano de negócios: Brechó Moda em Movimento, trabalho de conclusão de curso, UFPB, 2023
- Foto de capa: Efe Ersoy, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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