História da moda e do brechó #024
Moda dos anos 80: como era e o que ficou
Como era a moda dos anos 80: ombreira, Lycra e jeans, os clubes de Londres e o que a revista Veja registrou no Brasil entre 1985 e 1988.

A moda dos anos 80 costuma ser resumida a uma ombreira, mas o que museus e estudos mostram é mais variado: volume e roupa de poder, malha elástica e roupa de ginástica, e uma cena de clubes em Londres que inventava a própria roupa. No Brasil, a revista Veja registrou, de 1985 a 1988, corpo à mostra, Lycra, cores fortes e o anúncio do "fim da androginia". Este texto separa o que pertence a cada momento da década.
A década cabe numa ombreira?
Num post de março de 2013, antes da abertura de uma exposição do V&A, Kate Bethune, curadora assistente do projeto, contou que também imaginava ombreiras, polainas e permanentes malfeitas. A mostra, Club to Catwalk, de 10 de julho de 2013 a 16 de fevereiro de 2014, foi a primeira do museu dedicada à moda londrina dos anos 80. Ela agrupou estilos como New Romantic, Fetish, Goth e High Camp e ligou a passarela à roupa de clube, às revistas de estilo i-D, The Face e Blitz e a casas noturnas como Heaven e Taboo. Segundo o post, foi nessa década que Londres teve a primeira London Fashion Week.
O clube e a passarela se encontram em Vivienne Westwood. Segundo o V&A, a coleção Pirate, do outono/inverno de 1981, foi a primeira que ela e Malcolm McLaren levaram à passarela e está ligada ao visual que ficou conhecido como New Romantic. O FIT, de Nova York, diz que o visual foi adotado por bandas e frequentadores de clubes em Londres. No outono/inverno de 1982, a coleção Buffalo Girls/Nostalgia of Mud trouxe sutiãs de cetim no estilo dos anos 50 usados sobre vestidos e, segundo o museu, foi a primeira a levar a roupa de baixo para fora. Em 1985, a Mini-Crini marcou, nas palavras de Westwood, uma mudança fundamental em direção à alfaiataria.
O que a ombreira dizia?
A linha do tempo do FIT resume a década como a do tamanho: em toda a moda, maior era melhor. Segundo a página, à medida que os anos 80 avançaram, a chamada roupa de poder passou a dominar, com ombros acolchoados e acessórios marcantes. O FIT liga esse visual ao fato de mulheres ocuparem cargos de alto nível e usarem a moda para serem levadas a sério. Também cita a série de TV Dynasty, de 1981, como uma das responsáveis por popularizar a ombreira.
O mesmo FIT descreve, no começo da década, outro visual: o romantismo de mangas bufantes, laços e cintos grandes, que dava continuidade aos vestidos de estilo prairie dos anos 70.
O corpo e o elástico
O FIT aponta uma segunda linha: a mania de ginástica. Segundo a página, as mulheres passaram a usar roupa de academia no dia a dia, o que aparece na personagem de Jennifer Beals em Flashdance (1983) e nos vídeos de exercício de Jane Fonda, com moletons de ombro de fora e leggings. Estilistas como Donna Karan e Azzedine Alaïa passaram a usar tecidos elásticos, como a Lycra. A página resume: o corpo da mulher passou a moldar a roupa, e não o contrário.
E no Brasil? O que a Veja registrou
A historiadora Luciana Rosar Fornazari Klanovicz mapeou as imagens da seção "Moda" da Veja nos anos da redemocratização, em artigo de 2008 no Caderno Espaço Feminino, da Universidade Federal de Uberlândia. Alguns registros, com as datas das edições:
- Agosto de 1985. A revista mencionava a volta das flores do fim dos anos 70, em roupas mais coloridas e sensuais, e calças e saias justas entre as altas da estação. A Company, do Rio de Janeiro, escolhia algodão e malha porque a clientela era jovem.
- Agosto de 1985, em "Homens coloridos". Dizia que os homens trocavam as roupas sóbrias por um estilo mais arrojado e colorido.
- Dezembro de 1985. Para o verão 1985-1986, a Veja apostava em três características: muito conforto, cores fortes e a maior parte possível do corpo à mostra. A novidade era a bermuda de Lycra, para mulheres e homens, que a revista chamou de "uniforme do verão 86".
- Fevereiro de 1988. Em "Inverno a quente", anunciou o "fim da androginia" na moda, com roupas curtas, justas e sensuais, e tecidos misturados a fios elásticos, os stretches. Tratou as saias balonê e as ombreiras das coleções do ano anterior como "armaduras".
A leitura da autora é que esse discurso buscava manter a distinção entre homens e mulheres pela roupa e pelo corpo, afastando a moda dos modelos fluidos e andróginos dos anos 60 e 70. É uma interpretação sobre uma revista de grande circulação, não um retrato de tudo o que se vestia.
E o jeans?
O jeans nacional aparece com mais detalhe em Moda dos anos 70. Para os anos 80, a dissertação de Gisele Nepomuceno, da UFJF, aponta que a Alpargatas era, na primeira metade da década, a maior produtora de jeans do país, com 22 milhões de calças US TOP por ano.
O que ficou registrado da década?
Nenhuma das fontes mede o que continuou em uso. O que se repete nelas, do começo ao fim da década, é:
- O elástico. Do tecido de Lycra de Karan e Alaïa e dos moletons e leggings dos anos de Flashdance, no FIT, à bermuda de Lycra de 1985 e aos stretches de 1988, na Veja.
- A alfaiataria. A virada de Westwood, em 1985, no V&A, e a roupa de poder, no FIT.
- O jeans. Em escala industrial, no Brasil, segundo Nepomuceno.
Como datar sem exagerar
A ombreira não é de 1980: o FIT diz que a roupa de poder passou a dominar à medida que a década avançou, e a Veja, em 1988, a trata como moda das coleções do ano anterior. No começo da década, o que aparece é o romantismo, com mangas bufantes, e o Pirate de 1981. Para a diferença entre peça de época, estilo retrô e roupa só usada, veja Vintage, retrô ou só usada.
A década seguinte está em Moda dos anos 90, e a anterior, em Moda dos anos 70.
O que este texto não afirma
- Que a ombreira defina a década. O V&A mostra que ela é um estereótipo, e o FIT a coloca no avanço da década.
- O que se vestia na rua, no Brasil. A Veja é uma revista semanal de grande circulação, e a pesquisa trata das imagens da seção de moda.
- O que continuou em uso depois. Nenhuma fonte aberta para este texto mede isso.
Pontos importantes
- A ombreira costuma resumir a década, mas o V&A mostrou em 2013 que a moda londrina dos anos 80 também era New Romantic, Goth, Fetish e roupa de clube.
- Para o FIT, na moda maior era melhor. A roupa de poder, com ombros acolchoados, passou a dominar à medida que a década avançou.
- Ginástica e tecido elástico entraram no dia a dia: o FIT cita Flashdance (1983), Jane Fonda, Lycra e leggings.
- A Veja registrou, entre 1985 e 1988, corpo à mostra, cores fortes, bermuda de Lycra e, em 1988, o anúncio do "fim da androginia" na moda.
- Em fevereiro de 1988, a Veja já tratava ombreiras e saias balonê do ano anterior como "armaduras", segundo a pesquisadora Luciana Klanovicz.
- As fontes tratam de museu, revista e indústria. Elas não medem o que se vestia na rua nem o que continuou em uso.
Links de referência
- V&A, Kate Bethune, Club to Catwalk: London Fashion in the 1980s, blog, 14 de março de 2013
- V&A, Vivienne Westwood: punk, new romantic and beyond
- Klanovicz, Moda na Saia Justa, Caderno Espaço Feminino, UFU, v. 20, n. 2, 2008
- Fashion Institute of Technology (FIT), Fashion History Timeline, 1980-1989
- Nepomuceno, O jeans e a cultura juvenil: contribuições possíveis sobre o crescimento da indústria de confecção no Brasil, dissertação, UFJF, 2017
- Foto de capa: Reinis Brūzītis, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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Índice do blog
- #029Moda dos anos 60: como era e o que ficou
- #028Como tirar bolinha de roupa de lã, tricô e malha
- #027Moda dos anos 70: como era e o que ficou
- #026Para onde vai a roupa descartada: lixo têxtil, reciclagem e impacto da moda
- #025Brechó masculino: o que olhar ao comprar roupa de homem usada
- #024Moda dos anos 80: como era e o que ficouVocê está aqui
- #023Como desapegar de roupas: por onde começar
- #022Quantos brechós existem no Brasil? O número que se repete e o que ele mede
- #021Como tirar mancha antiga de roupa, e quando não insistir
- #020Moda dos anos 90: como era e o que dizem que voltou
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