Guia do brechó #007
Como comprar em brechó: o que olhar na peça antes de levar
O que olhar na peça antes de levar: tecido, costura, zíper, axila, gola, etiqueta de composição e caimento, com guias de extensão e de conservação.

Abra a peça inteira, com boa luz, e olhe por fora e por dentro: tecido, costura, zíper, axila, gola e etiqueta de composição. O roteiro vem de um guia de extensão universitária para avaliar roupa pronta e de orientações de conservadores de museu, e este texto diz onde cada um deixa de valer para roupa usada. Tamanho e lavagem têm guia próprio, nos links ao longo do texto.
Por onde começar?
Quem examina têxtil como ofício começa abrindo a peça. O National Park Service, serviço de parques nacionais dos Estados Unidos, que mantém um programa de acervos de museu, publicou em 2000 um guia escrito por uma conservadora sobre limpeza a seco de têxteis. Ele pede que a peça seja examinada inteira, aberta, num espaço limpo e bem iluminado, e lista o que procurar: sujeira de uso, como suor e gordura da pele, manchas marrons, descoloração geral, furos, rasgos e áreas esfiapadas ou gastas.
A finalidade do guia é decidir se uma peça histórica aguenta limpeza, não ajudar quem compra. A ordem do olhar, porém, serve.
O que olhar no tecido?
Procure o que a fonte de conservação lista: fibra que parece fraca, furo, rasgo, parte gasta ou esfiapada, mancha. Em malha e em lã, veja também as bolinhas. A Woolmark, entidade do setor da lã, diz que numa blusa de lã elas aparecem sobretudo onde há atrito, como cotovelos, axilas, mangas, barriga e laterais. Como tirar bolinha de roupa traz o que as fontes dizem sobre removê-las, e como tirar mancha antiga, o que dizem sobre manchas.
Fio puxado entra na mesma conta. O guia PNW 197, das extensões universitárias de Washington, Oregon e Idaho, afirma que serve também como ferramenta para comparar e avaliar roupa pronta, e pede tecido livre de fios corridos ou puxados.
Cheiro de guardado não aparece nesses guias. Está no guia de lavagem, com o que as fontes dizem sobre umidade e mofo.
E a costura?
Do PNW 197, o que dá para conferir numa peça de costura:
- ponto firme e regular, de comprimento adequado ao tecido, sem franzido, sem ponto pulado ou quebrado e sem fio solto;
- pontas de costura travadas, com pesponto de volta ou nó;
- margem de costura lisa e acabada para não desfiar, quando o tecido pede;
- reforço onde há esforço: ombro, cava, cintura e gancho, e em malha elástica ou tecido de trama aberta;
- estampa, listra e xadrez que se encontram nas emendas;
- barra com pontos igualmente espaçados, firmes e invisíveis por fora, e que fica à mesma distância do chão em volta toda, salvo quando o modelo pede outra coisa;
- botão preso com firmeza e casa reforçada, com todos os pontos inteiros.
O acabamento interno só se vê do avesso, e por isso vale virar a peça. O guia não traz número de pontos por centímetro: pede que o comprimento do ponto combine com o tecido e seja uniforme.
E o zíper?
O mesmo guia pede pesponto reto e regular, abertura que fecha lisa, sem franzidos nem ondas, zíper que não estufa nem sobressai, tamanho certo para o uso e peso compatível com o tecido. E uma frase simples: o zíper corre com facilidade e não prende. Fechos de gancho e de pressão entram na mesma régua: alinhados, firmes e funcionais.
Axila e gola: o que olhar
A axila e a gola ficam em contato direto com o corpo. A fonte do National Park Service lista, para roupa, as manchas de suor e a gordura transferida da pele entre as sujeiras de uso.
Um relato de conservação publicado no Journal of the American Institute for Conservation descreve o efeito extremo: numa túnica militar do século 19, o forro de seda da axila estava descolorido, quebradiço e se desfazendo, por causa do suor sobre a fibra. O caso é de peça histórica, com forro de seda, e não mede roupa de hoje. Serve para dizer onde olhar com atenção. Que a mesma regra valha para uma camiseta é inferência, e a mancha em si é assunto do texto sobre mancha antiga.
Na gola, o PNW 197 pede pesponto regular e firme, formato igual dos dois lados e que só a parte de cima apareça. A entretela, o reforço interno, entra na lista por manter a forma. Punho também: liso, de largura uniforme, sem volume.
O que a etiqueta de composição diz?
Segundo o Inmetro, o percentual de cada fibra vem em massa, em ordem decrescente e com o mesmo destaque. A primeira da lista é a que mais pesa. Quando uma fibra tem pelo menos 85%, o fabricante pode escrever o percentual exato ou "85% como mínimo". Se a peça tem partes de composição diferente, cada uma é identificada e declarada em separado, e a composição do forro também vem à parte.
A etiqueta diz do que a peça é feita, e não se ela está bem costurada ou gasta. O que fazer com a fibra, em casa, é outra parte da etiqueta, a de conservação, e o guia de lavagem explica os símbolos e o que se perde quando a etiqueta falta.
O que o caimento diz?
O PNW 197 trata do caimento por cinco fatores: o sentido do fio do tecido, a linha, a folga, o equilíbrio e a lisura. Alguns sinais que dá para ver parado, com a peça vestida ou pendurada:
- o fio vertical do tecido cai perpendicular ao chão, e o horizontal fica paralelo a ele;
- as costuras verticais caem a prumo, e a barra fica paralela ao chão, salvo quando o modelo pede outra coisa;
- rugas que repuxam e marcam indicam folga de menos, e dobras soltas, folga demais;
- a peça se equilibra: direita e esquerda, frente e costas iguais.
Há um sinal que o guia não cobre. A Cotton Incorporated, organização de pesquisa e promoção do algodão, descreve a torção, em malha e em tecido plano: tensões acumuladas na fabricação se soltam na lavagem, e a perna da calça ou a manga gira em torno do membro, com a costura lateral deslocada. Peça usada já foi lavada, e por isso é provável que a torção, quando existe, já apareça. Isso é inferência.
Esses sinais têm dois donos: a peça e o corpo de quem veste. Corpos têm formas diferentes e, por isso, a mesma peça tem caimentos diferentes. Um repuxo que só aparece em você pode ser ajuste; uma costura torcida aparece em qualquer corpo. A separação é inferência nossa, e o guia de tamanhos mostra por que o número da etiqueta, sozinho, não responde.
O que este texto não afirma
- Que exista um número de corte. Nenhuma das fontes consultadas traz quantos pontos por centímetro uma costura deve ter.
- Que um guia de avaliação de costura, escrito para roupa pronta e para concurso de costura caseira nos Estados Unidos, preveja quanto tempo uma peça usada dura.
- Que o dano de suor num forro de seda do século 19 se repita em roupa de hoje.
- Que a composição, sozinha, diga se a peça é boa. As fontes de composição são de regra de etiqueta, não de desempenho.
Depois do olhar
Olhar assim leva poucos minutos e não garante nada: as fontes dizem o que observar, não o que vai acontecer com a peça. Sobram duas perguntas que têm texto próprio: o tamanho, em GG equivale a que número?, e a lavagem, em como lavar roupa de brechó.
Pontos importantes
- Abra a peça inteira, com boa luz, por fora e por dentro: é a primeira instrução de um guia de conservação de museu para examinar têxteis.
- Um guia de extensão universitária, que serve para avaliar roupa pronta, pede costura firme e regular, zíper que corre sem prender e gola que mantém a forma.
- Uma fonte de conservação lista suor e gordura da pele entre as sujeiras de uso; num caso, o forro de seda da axila de uma túnica do século 19 se deteriorou.
- A etiqueta de composição lista as fibras em percentual de massa, da maior para a menor, e o forro pode ter composição própria, segundo o Inmetro.
- Costura lateral que gira e repuxos podem ser da peça ou do corpo; as fontes dão os sinais, e o texto marca como inferência o que elas não dizem.
Links de referência
- Pacific Northwest Extension (Washington State, Oregon State e University of Idaho), PNW 197, Quality Standards for Sewn Items/Projects, reimpresso em 2004
- National Park Service, Conserve O Gram 16/2, Dry Cleaning Museum Textiles, 2000
- Vuori e Hanson, Conservation of a Military Tunic Including the Use of Guide Threads for Positioning Repairs, Journal of the American Institute for Conservation, v. 39, n. 2
- Inmetro, como deve ser a indicação de porcentagem da composição na etiqueta de um produto têxtil
- Inmetro, como indicar a composição têxtil de um produto com tecidos de composições diferentes
- Inmetro, é necessário indicar a composição do forro de um produto têxtil
- Cotton Incorporated, Cotton University, webinar sobre torção e deslocamento de costura em malhas
- Woolmark, What is pilling
- Foto de capa: Atlantic Ambience, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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