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Guia do brechó #007

Como comprar em brechó: o que olhar na peça antes de levar

O que olhar na peça antes de levar: tecido, costura, zíper, axila, gola, etiqueta de composição e caimento, com guias de extensão e de conservação.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 7 min

Etiqueta de roupa à mostra na gola de uma camiseta listrada, em close.
Foto: Atlantic Ambience / Pexels

Abra a peça inteira, com boa luz, e olhe por fora e por dentro: tecido, costura, zíper, axila, gola e etiqueta de composição. O roteiro vem de um guia de extensão universitária para avaliar roupa pronta e de orientações de conservadores de museu, e este texto diz onde cada um deixa de valer para roupa usada. Tamanho e lavagem têm guia próprio, nos links ao longo do texto.

Por onde começar?

Quem examina têxtil como ofício começa abrindo a peça. O National Park Service, serviço de parques nacionais dos Estados Unidos, que mantém um programa de acervos de museu, publicou em 2000 um guia escrito por uma conservadora sobre limpeza a seco de têxteis. Ele pede que a peça seja examinada inteira, aberta, num espaço limpo e bem iluminado, e lista o que procurar: sujeira de uso, como suor e gordura da pele, manchas marrons, descoloração geral, furos, rasgos e áreas esfiapadas ou gastas.

A finalidade do guia é decidir se uma peça histórica aguenta limpeza, não ajudar quem compra. A ordem do olhar, porém, serve.

O que olhar no tecido?

Procure o que a fonte de conservação lista: fibra que parece fraca, furo, rasgo, parte gasta ou esfiapada, mancha. Em malha e em lã, veja também as bolinhas. A Woolmark, entidade do setor da lã, diz que numa blusa de lã elas aparecem sobretudo onde há atrito, como cotovelos, axilas, mangas, barriga e laterais. Como tirar bolinha de roupa traz o que as fontes dizem sobre removê-las, e como tirar mancha antiga, o que dizem sobre manchas.

Fio puxado entra na mesma conta. O guia PNW 197, das extensões universitárias de Washington, Oregon e Idaho, afirma que serve também como ferramenta para comparar e avaliar roupa pronta, e pede tecido livre de fios corridos ou puxados.

Cheiro de guardado não aparece nesses guias. Está no guia de lavagem, com o que as fontes dizem sobre umidade e mofo.

E a costura?

Do PNW 197, o que dá para conferir numa peça de costura:

O acabamento interno só se vê do avesso, e por isso vale virar a peça. O guia não traz número de pontos por centímetro: pede que o comprimento do ponto combine com o tecido e seja uniforme.

E o zíper?

O mesmo guia pede pesponto reto e regular, abertura que fecha lisa, sem franzidos nem ondas, zíper que não estufa nem sobressai, tamanho certo para o uso e peso compatível com o tecido. E uma frase simples: o zíper corre com facilidade e não prende. Fechos de gancho e de pressão entram na mesma régua: alinhados, firmes e funcionais.

Axila e gola: o que olhar

A axila e a gola ficam em contato direto com o corpo. A fonte do National Park Service lista, para roupa, as manchas de suor e a gordura transferida da pele entre as sujeiras de uso.

Um relato de conservação publicado no Journal of the American Institute for Conservation descreve o efeito extremo: numa túnica militar do século 19, o forro de seda da axila estava descolorido, quebradiço e se desfazendo, por causa do suor sobre a fibra. O caso é de peça histórica, com forro de seda, e não mede roupa de hoje. Serve para dizer onde olhar com atenção. Que a mesma regra valha para uma camiseta é inferência, e a mancha em si é assunto do texto sobre mancha antiga.

Na gola, o PNW 197 pede pesponto regular e firme, formato igual dos dois lados e que só a parte de cima apareça. A entretela, o reforço interno, entra na lista por manter a forma. Punho também: liso, de largura uniforme, sem volume.

O que a etiqueta de composição diz?

Segundo o Inmetro, o percentual de cada fibra vem em massa, em ordem decrescente e com o mesmo destaque. A primeira da lista é a que mais pesa. Quando uma fibra tem pelo menos 85%, o fabricante pode escrever o percentual exato ou "85% como mínimo". Se a peça tem partes de composição diferente, cada uma é identificada e declarada em separado, e a composição do forro também vem à parte.

A etiqueta diz do que a peça é feita, e não se ela está bem costurada ou gasta. O que fazer com a fibra, em casa, é outra parte da etiqueta, a de conservação, e o guia de lavagem explica os símbolos e o que se perde quando a etiqueta falta.

O que o caimento diz?

O PNW 197 trata do caimento por cinco fatores: o sentido do fio do tecido, a linha, a folga, o equilíbrio e a lisura. Alguns sinais que dá para ver parado, com a peça vestida ou pendurada:

Há um sinal que o guia não cobre. A Cotton Incorporated, organização de pesquisa e promoção do algodão, descreve a torção, em malha e em tecido plano: tensões acumuladas na fabricação se soltam na lavagem, e a perna da calça ou a manga gira em torno do membro, com a costura lateral deslocada. Peça usada já foi lavada, e por isso é provável que a torção, quando existe, já apareça. Isso é inferência.

Esses sinais têm dois donos: a peça e o corpo de quem veste. Corpos têm formas diferentes e, por isso, a mesma peça tem caimentos diferentes. Um repuxo que só aparece em você pode ser ajuste; uma costura torcida aparece em qualquer corpo. A separação é inferência nossa, e o guia de tamanhos mostra por que o número da etiqueta, sozinho, não responde.

O que este texto não afirma

Depois do olhar

Olhar assim leva poucos minutos e não garante nada: as fontes dizem o que observar, não o que vai acontecer com a peça. Sobram duas perguntas que têm texto próprio: o tamanho, em GG equivale a que número?, e a lavagem, em como lavar roupa de brechó.

Pontos importantes

Links de referência

  1. Pacific Northwest Extension (Washington State, Oregon State e University of Idaho), PNW 197, Quality Standards for Sewn Items/Projects, reimpresso em 2004
  2. National Park Service, Conserve O Gram 16/2, Dry Cleaning Museum Textiles, 2000
  3. Vuori e Hanson, Conservation of a Military Tunic Including the Use of Guide Threads for Positioning Repairs, Journal of the American Institute for Conservation, v. 39, n. 2
  4. Inmetro, como deve ser a indicação de porcentagem da composição na etiqueta de um produto têxtil
  5. Inmetro, como indicar a composição têxtil de um produto com tecidos de composições diferentes
  6. Inmetro, é necessário indicar a composição do forro de um produto têxtil
  7. Cotton Incorporated, Cotton University, webinar sobre torção e deslocamento de costura em malhas
  8. Woolmark, What is pilling
  9. Foto de capa: Atlantic Ambience, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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