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Moda circular: dados e mercado #005

O que é moda circular, e o que a economia circular tem a ver com ela

O que é moda circular, como ela difere da economia linear e da reciclagem, e o que dizem a Fundação Ellen MacArthur e o decreto federal de 2024.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 6 min

Roupas coloridas penduradas numa grade ao lado de um mural pintado com a frase Reduce, Reuse, Recycle.
Foto: Andri Wijayanto / Pexels

Moda circular é a economia circular aplicada à roupa: peças, tecidos e fibras ficam em uso pelo maior tempo possível e, depois de usados, voltam à economia em vez de virar resíduo. A definição usada aqui é a da Fundação Ellen MacArthur, que publicou em 2017 o relatório A new textiles economy. No Brasil, a economia circular tem definição oficial desde junho de 2024, num decreto federal.

O que é economia circular?

Para entender o termo, vale começar pelo oposto. A economia linear segue uma fila: extrai, produz, usa e descarta. A fundação descreve esse caminho como um sistema de "tirar, fazer e jogar fora", o take-make-waste do original.

Para a fundação, a economia circular é um sistema em que os materiais nunca viram resíduo e a natureza é regenerada. Ela se apoia em três princípios, todos decididos no projeto do produto: eliminar o resíduo e a poluição, fazer produtos e materiais circularem no seu valor mais alto e regenerar a natureza.

O Brasil tem redação própria. O Decreto nº 12.082, de 27 de junho de 2024, que criou a Estratégia Nacional de Economia Circular, define o termo como o sistema econômico de produção que mantém o fluxo circular dos recursos, somando, retendo ou recuperando o valor deles, com base em três princípios: não gerar resíduos, fazer produtos e materiais circularem e regenerar. São duas formulações do mesmo desenho.

E a moda circular?

O relatório de 2017 aplica a ideia à roupa e chama o resultado de "nova economia têxtil": roupas, tecidos e fibras mantidos no seu valor mais alto durante o uso e que voltam à economia depois, sem nunca terminar como resíduo. Para chegar lá, propõe quatro ambições:

Em 2023, a fundação resumiu a visão para a moda em três ideias: a roupa é usada mais vezes, é feita para ser feita de novo e é feita de insumos seguros e reciclados ou renováveis.

Das quatro ambições, uma recebe destaque: segundo o relatório, aumentar o número de vezes que a roupa é usada é a alavanca mais direta para captar valor e reduzir resíduo e poluição no sistema têxtil.

Por que o relatório fala em sistema "linear"?

O diagnóstico usa dados de 2015, comparados com 2000:

São números de 2015, com mais de dez anos. O texto sobre para onde vai a roupa descartada traz os mais recentes que conseguimos abrir, do Brasil (2024) e da Europa (2020).

Um dado de contexto para ler o relatório: ele foi feito com a contribuição de empresas e fundações do setor, que aparecem nos agradecimentos e nos depoimentos de abertura. Isso não invalida os números, mas ajuda a ler: é um documento que propõe uma visão, não uma auditoria independente.

Circular é o mesmo que reciclar?

Não. A página de introdução da fundação lista a reciclagem como um dos processos que mantêm produtos e materiais em circulação, ao lado de manutenção, reuso, recondicionamento e remanufatura, e insiste no que vem antes: impedir que o resíduo seja gerado.

A lei brasileira ajuda a ver a ordem. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305, de 2010) manda observar uma ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos e, por último, a disposição final dos rejeitos. A mesma lei separa as duas palavras: reutilização é aproveitar sem transformar o material; reciclagem é transformá-lo para virar insumo ou produto novo.

Na roupa, a diferença é concreta. A peça que muda de dono continua sendo a mesma peça. A que é reciclada vira outra coisa e, segundo o relatório de 2017, o mais comum é virar material de menor valor. A Agência Europeia do Meio Ambiente, num informe de 2024, diz que o reuso é uma opção ambientalmente mais sustentável do que a reciclagem.

Uma ressalva de linguagem, nossa e não da lei: a lei fala de resíduo. Uma peça em bom estado que passa para outra pessoa ainda não é resíduo. O que se aproveita aqui é o princípio, não o enquadramento legal.

Onde entram o brechó e a consignação?

O relatório aponta três frentes para aumentar o uso: ampliar o aluguel de roupa por curto período, tornar a durabilidade mais atraente e reforçar compromissos de marcas e políticas públicas. Na segunda, para a roupa que já foi usada, ficou sem uso e ainda dura, os modelos de revenda aprimorados aparecem como uma oportunidade. O decreto brasileiro, por sua vez, inclui entre os objetivos da estratégia incentivar a reutilização e o aumento da vida útil dos produtos.

Inferência nossa: brechó e consignação ficam nesse trecho, o do "usar mais". A peça muda de dono e segue em uso. A consignação é um dos caminhos pelos quais a peça chega ao brechó, como contamos no guia sobre consignação, e o brechó em geral está no primeiro guia.

Duas ressalvas. O relatório não fala em consignação, e nenhuma das fontes deste texto mede se comprar roupa usada diminui o consumo de roupa nova. É uma hipótese razoável, não um dado.

O que este texto não afirma

Pontos importantes

Links de referência

  1. Ellen MacArthur Foundation, A new textiles economy: Redesigning fashion's future, 2017
  2. Ellen MacArthur Foundation, A new textiles economy: Summary of findings, 2017
  3. Ellen MacArthur Foundation, Circular economy introduction: overview
  4. Ellen MacArthur Foundation, Our vision of a circular economy for fashion, 2023
  5. Decreto nº 12.082, de 27 de junho de 2024, institui a Estratégia Nacional de Economia Circular
  6. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, Política Nacional de Resíduos Sólidos
  7. Agência Europeia do Meio Ambiente, Management of used and waste textiles in Europe's circular economy, 2024
  8. Foto de capa: Andri Wijayanto, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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