Moda circular: dados e mercado #005
O que é moda circular, e o que a economia circular tem a ver com ela
O que é moda circular, como ela difere da economia linear e da reciclagem, e o que dizem a Fundação Ellen MacArthur e o decreto federal de 2024.

Moda circular é a economia circular aplicada à roupa: peças, tecidos e fibras ficam em uso pelo maior tempo possível e, depois de usados, voltam à economia em vez de virar resíduo. A definição usada aqui é a da Fundação Ellen MacArthur, que publicou em 2017 o relatório A new textiles economy. No Brasil, a economia circular tem definição oficial desde junho de 2024, num decreto federal.
O que é economia circular?
Para entender o termo, vale começar pelo oposto. A economia linear segue uma fila: extrai, produz, usa e descarta. A fundação descreve esse caminho como um sistema de "tirar, fazer e jogar fora", o take-make-waste do original.
Para a fundação, a economia circular é um sistema em que os materiais nunca viram resíduo e a natureza é regenerada. Ela se apoia em três princípios, todos decididos no projeto do produto: eliminar o resíduo e a poluição, fazer produtos e materiais circularem no seu valor mais alto e regenerar a natureza.
O Brasil tem redação própria. O Decreto nº 12.082, de 27 de junho de 2024, que criou a Estratégia Nacional de Economia Circular, define o termo como o sistema econômico de produção que mantém o fluxo circular dos recursos, somando, retendo ou recuperando o valor deles, com base em três princípios: não gerar resíduos, fazer produtos e materiais circularem e regenerar. São duas formulações do mesmo desenho.
E a moda circular?
O relatório de 2017 aplica a ideia à roupa e chama o resultado de "nova economia têxtil": roupas, tecidos e fibras mantidos no seu valor mais alto durante o uso e que voltam à economia depois, sem nunca terminar como resíduo. Para chegar lá, propõe quatro ambições:
- eliminar substâncias preocupantes e a liberação de microfibras;
- aumentar o número de vezes que a roupa é usada;
- melhorar radicalmente a reciclagem;
- usar os recursos com eficiência e migrar para insumos renováveis.
Em 2023, a fundação resumiu a visão para a moda em três ideias: a roupa é usada mais vezes, é feita para ser feita de novo e é feita de insumos seguros e reciclados ou renováveis.
Das quatro ambições, uma recebe destaque: segundo o relatório, aumentar o número de vezes que a roupa é usada é a alavanca mais direta para captar valor e reduzir resíduo e poluição no sistema têxtil.
Por que o relatório fala em sistema "linear"?
O diagnóstico usa dados de 2015, comparados com 2000:
- a produção de roupas aproximadamente dobrou em 15 anos;
- a utilização, que é o número médio de vezes que uma peça é usada antes de deixar de ser usada, caiu 36% em relação a 15 anos antes, segundo o relatório;
- em 2015, 73% do material usado para fazer roupas terminou em aterro ou incineração, segundo o relatório; menos de 1% virou roupa nova e 12% foi reciclado em usos de menor valor, como isolamento, panos de limpeza e enchimento de colchão.
São números de 2015, com mais de dez anos. O texto sobre para onde vai a roupa descartada traz os mais recentes que conseguimos abrir, do Brasil (2024) e da Europa (2020).
Um dado de contexto para ler o relatório: ele foi feito com a contribuição de empresas e fundações do setor, que aparecem nos agradecimentos e nos depoimentos de abertura. Isso não invalida os números, mas ajuda a ler: é um documento que propõe uma visão, não uma auditoria independente.
Circular é o mesmo que reciclar?
Não. A página de introdução da fundação lista a reciclagem como um dos processos que mantêm produtos e materiais em circulação, ao lado de manutenção, reuso, recondicionamento e remanufatura, e insiste no que vem antes: impedir que o resíduo seja gerado.
A lei brasileira ajuda a ver a ordem. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305, de 2010) manda observar uma ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos e, por último, a disposição final dos rejeitos. A mesma lei separa as duas palavras: reutilização é aproveitar sem transformar o material; reciclagem é transformá-lo para virar insumo ou produto novo.
Na roupa, a diferença é concreta. A peça que muda de dono continua sendo a mesma peça. A que é reciclada vira outra coisa e, segundo o relatório de 2017, o mais comum é virar material de menor valor. A Agência Europeia do Meio Ambiente, num informe de 2024, diz que o reuso é uma opção ambientalmente mais sustentável do que a reciclagem.
Uma ressalva de linguagem, nossa e não da lei: a lei fala de resíduo. Uma peça em bom estado que passa para outra pessoa ainda não é resíduo. O que se aproveita aqui é o princípio, não o enquadramento legal.
Onde entram o brechó e a consignação?
O relatório aponta três frentes para aumentar o uso: ampliar o aluguel de roupa por curto período, tornar a durabilidade mais atraente e reforçar compromissos de marcas e políticas públicas. Na segunda, para a roupa que já foi usada, ficou sem uso e ainda dura, os modelos de revenda aprimorados aparecem como uma oportunidade. O decreto brasileiro, por sua vez, inclui entre os objetivos da estratégia incentivar a reutilização e o aumento da vida útil dos produtos.
Inferência nossa: brechó e consignação ficam nesse trecho, o do "usar mais". A peça muda de dono e segue em uso. A consignação é um dos caminhos pelos quais a peça chega ao brechó, como contamos no guia sobre consignação, e o brechó em geral está no primeiro guia.
Duas ressalvas. O relatório não fala em consignação, e nenhuma das fontes deste texto mede se comprar roupa usada diminui o consumo de roupa nova. É uma hipótese razoável, não um dado.
O que este texto não afirma
- que comprar em brechó, sozinho, torne a moda circular: o relatório trata do sistema inteiro, do projeto da peça à coleta e à reciclagem;
- que os números de 2015 valham para hoje;
- que exista definição oficial brasileira de "moda circular": o decreto define economia circular em geral e não cita têxteis;
- que moda circular e fast fashion sejam um par de opostos simples. O modelo de produção que o relatório questiona está em fast fashion e slow fashion.
Pontos importantes
- Moda circular é a economia circular aplicada à roupa: peças e fibras ficam em uso no valor mais alto e voltam à economia depois, sem virar resíduo.
- O Decreto 12.082, de 2024, define economia circular como sistema que mantém o fluxo circular dos recursos, retendo ou recuperando o valor deles.
- Em 2015, segundo a Fundação Ellen MacArthur, 73% do material das roupas foi para aterro ou incineração, e menos de 1% virou roupa nova.
- A lei de resíduos de 2010 fixa a ordem: não gerar, reduzir, reutilizar, reciclar, tratar. Reutilizar vem antes de reciclar.
- Para o relatório de 2017, aumentar o número de vezes que a roupa é usada é a alavanca mais direta. Modelos de revenda estão entre os citados.
- Brechó e consignação ficam no trecho de usar mais, por inferência nossa: nenhuma fonte aqui mede se a roupa usada diminui o consumo de roupa nova.
Links de referência
- Ellen MacArthur Foundation, A new textiles economy: Redesigning fashion's future, 2017
- Ellen MacArthur Foundation, A new textiles economy: Summary of findings, 2017
- Ellen MacArthur Foundation, Circular economy introduction: overview
- Ellen MacArthur Foundation, Our vision of a circular economy for fashion, 2023
- Decreto nº 12.082, de 27 de junho de 2024, institui a Estratégia Nacional de Economia Circular
- Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, Política Nacional de Resíduos Sólidos
- Agência Europeia do Meio Ambiente, Management of used and waste textiles in Europe's circular economy, 2024
- Foto de capa: Andri Wijayanto, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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