Guia do brechó #004
Como lavar roupa de brechó e tirar o cheiro de guardado
O que a etiqueta é obrigada a informar, o que os cinco símbolos querem dizer e o que as fontes públicas dizem sobre mofo e cheiro de guardado.
Toda peça que chega em casa traz a mesma pergunta: lava como? Numa roupa de segunda mão, a pergunta vem dobrada. A resposta costuma estar na etiqueta, e o que ela precisa dizer não é gentileza da marca: é regra. Este guia percorre o que a etiqueta é obrigada a informar, o que os cinco símbolos querem dizer e o que as fontes sustentam sobre o cheiro de guardado.
O que a etiqueta é obrigada a dizer
A informação sobre os tratamentos de cuidado para a conservação da peça é obrigatória e tem de seguir uma norma específica, a NM ISO 3758:2013. Quem diz é o Inmetro, na pergunta frequente sobre o assunto, atualizada em abril de 2026. A exigência vem da Portaria Inmetro nº 118, de 2021.
A mesma página explica por que as etiquetas variam tanto: a informação pode vir em símbolos, em texto ou nos dois, como preferir quem fabrica, quem importa ou quem põe a marca no produto.
O Inmetro lista cinco informações obrigatórias na etiqueta: quem fabricou ou importou, o país de origem, a composição das fibras com o percentual de cada uma, os tratamentos de cuidado para a conservação e o tamanho. Numa peça que já teve outro dono, ela é o único registro de como aquele tecido foi feito.
O texto da norma é vendido pela ABNT e não foi lido para este guia: o que está aqui vem das páginas públicas do Inmetro e do Ipem-SP.
Os cinco símbolos, sempre na mesma ordem
São cinco processos, e eles aparecem sempre na mesma sequência: lavagem, alvejamento, secagem, passadoria e limpeza profissional. A lista está na página de símbolos têxteis do Ipem-SP, o órgão que fiscaliza em São Paulo, e na cartilha de produtos têxteis do Inmetro, de 2021, que diz que os cinco "deverão ser informados na sequência descrita".
Quer dizer que a ordem não é decoração: dá para ler a etiqueta da esquerda para a direita sabendo o que cada posição trata. A sequência pode vir numa linha, em mais de uma ou numa coluna só.
Além dos cinco símbolos principais existem os adicionais, que a cartilha nomeia: a Cruz de Santo André, uma barra, a barra dupla e os pontos. A Cruz de Santo André é o X, e é o que mais importa no dia a dia: ela marca o processo que não é permitido.
Duas regras da cartilha mostram como isso encadeia:
- se a lavagem aparece como não permitida, a etiqueta tem de indicar a limpeza profissional, a seco ou a úmido;
- se a secagem em tambor, a da máquina, aparece como não permitida, a etiqueta tem de indicar um ou mais símbolos de secagem natural.
E quando a etiqueta não está mais lá
Acontece, e em peça usada acontece mais: a etiqueta saiu ou virou um retângulo ilegível. O Ipem-SP, que fiscaliza as etiquetas em São Paulo, diz o que se perde sem ela: "sem os cuidados adequados, a peça pode sofrer danos provocados por lavagem incorreta, como encolhimento, desbotamento e deformação". A falta da informação também dificulta saber se o tecido tem material que pode causar reação alérgica em pessoas sensíveis.
Para quem corta a etiqueta porque ela incomoda, o instituto recomenda fotografá-la antes, frente e verso, e guardar a foto no celular. A instrução fica com você mesmo que a etiqueta desbote.
Para a peça que já chegou sem etiqueta, as fontes consultadas não trazem um método de lavagem, e este guia não inventa um.
De onde vem o cheiro de guardado
Os manuais de conservação não falam em cheiro. Falam em umidade e em fungo.
O manual Conservação preventiva de acervos, de Lia Canola Teixeira e Vanilde Rohling Ghizoni, publicado pela Fundação Catarinense de Cultura em 2012, registra que a biodeterioração ocorre "em condições de umidade relativa acima de 70%, índice em que a ocorrência de fungos é provável". Biodeterioração, ali, é a deterioração causada por fungos e microrganismos que usam luz e umidade como fonte de energia.
O instituto canadense de conservação chega ao mesmo número: o que deve sempre ser evitado numa coleção têxtil é o ambiente úmido, acima de 70%. A 70%, o mofo leva três meses ou mais para aparecer; a 90%, poucos dias.
O mesmo manual brasileiro explica o estrago no tecido: papéis e têxteis guardados com umidade relativa elevada sofrem reações de hidrólise, "causando a deterioração das fibras e dos materiais e a perda de sua resistência mecânica". Não é só o cheiro, portanto. A fibra também enfraquece.
Há um segundo caminho para o mau cheiro, com fonte de saúde: o manual da Anvisa sobre processamento de roupas de serviços de saúde, de 2009, registra que resíduo de produto saneante pode provocar odor desagradável e irritar a pele. É enxágue mal feito, não mofo.
Ressalva: os manuais de conservação são de museu, e o da Anvisa, de lavanderia de hospital. O que atravessa para casa é a lógica, não o protocolo.
Como guardar para o cheiro não voltar
Três orientações do manual brasileiro valem para qualquer armário:
- Nada de saco plástico. A frase é literal: "Os têxteis nunca devem ser guardados em sacos plásticos". A recomendação é acondicionar na horizontal e sem dobras, envolvendo a peça em papel adequado ou em tecido de algodão branco, sem goma.
- Cabide que sustenta. Para indumentária, o manual pede cabides com boa sustentação, acolchoados e forrados com tecido de algodão.
- Enchimento no que deforma. Chapéu, bolsa e sapato devem receber enchimento, para que não surjam deformações e dobras.
O Museu da Imigração do Estado de São Paulo, num texto de 2018, explica o motivo: tecido lacrado em plástico ou em pote hermético sofre com a condensação de umidade. O plástico não tira a umidade. Prende.
E o sol, resolve?
Aqui as fontes contrariam a intuição. O manual da Fundação Catarinense de Cultura é direto: "o principal fator de deterioração de um têxtil é a luz". Os efeitos da radiação são cumulativos e irreversíveis; nos materiais orgânicos, e tecido é um deles, a luz provoca mudança de cor e amarelecimento, e ainda afeta a resistência mecânica, "como a perda de elasticidade nos tecidos".
Nenhuma fonte consultada sustenta que o sol desinfeta a roupa. O que elas sustentam é o contrário: sol direto e prolongado desbota a cor e enfraquece a fibra. Lugar arejado, à sombra, faz o serviço contra a umidade sem esse estrago.
E o vinagre?
"Lavar roupa de brechó com vinagre" é uma das buscas mais repetidas sobre o assunto, e existe um estudo sério sobre isso. Numa pesquisa publicada em 2020 na revista BMC Microbiology, Marc-Kevin Zinn e Dirk Bockmühl testaram o ácido acético, que é o que há no vinagre, em procedimentos de limpeza de casa. Segundo o resumo, o ácido acético não tem efeito desinfetante sobre microrganismos na dosagem comumente usada para limpeza. Na lavagem de roupa, com a água a 0,75% de ácido acético, houve redução completa ou quase completa das bactérias testadas.
Esse 0,75% é concentração de laboratório, não medida de xícara de vinagre. E o estudo mediu microrganismos, não cheiro.
Os estudos que medem cheiro em tecido tratam de suor. Num deles, de 2024, na Textile Research Journal, Rachel McQueen, Graham Eyres e Raechel Laing expuseram fibras a um suor sintético: as celulósicas, família do algodão e da viscose, liberaram menos compostos de odor que lã, náilon e poliéster. Nenhum dos dois estudos testou produto de casa contra cheiro de guardado.
O que não muda, com receita ou sem: se a etiqueta marca o alvejamento como não permitido, ele continua não permitido.
O que este guia não afirma
Parte do que se lê por aí sobre roupa usada não tem fonte que sustente, e é mais honesto dizer:
- que o cheiro de guardado seja, ele mesmo, o fungo. O que as fontes ligam é umidade alta e aparecimento de fungo;
- como lavar uma peça que já chegou sem etiqueta. As fontes oficiais dizem o que se perde sem ela, não o que fazer;
- que vinagre, bicarbonato ou outro produto de casa tire cheiro de guardado. Nenhum estudo consultado mediu isso;
- uma temperatura de lavagem para roupa de segunda mão em casa. Os números que existem são de lavanderia de hospital e de orientação de pandemia, e não se transportam;
- que naftalina sirva num armário de casa. O manual de 2012 a cita em sachê, para reserva de museu; guia mais recente não a recomenda, e nenhuma fonte de saúde entrou aqui.
Roupa que já teve outra casa
Numa peça de segunda mão, o cuidado é o mesmo de qualquer roupa, com uma diferença de atenção: a etiqueta é a memória daquele tecido, e cada peça é única, como contou o primeiro guia. Quando uma estraga, não há outra igual para pôr no lugar.
Ler o que a etiqueta permite, enxaguar bem e guardar em lugar seco, arejado e longe da luz resolve a maior parte do caminho.
Pontos importantes
- A etiqueta é obrigada a trazer os cuidados de conservação, e a regra do Inmetro manda seguir a norma NM ISO 3758:2013.
- São cinco processos, sempre na mesma ordem: lavagem, alvejamento, secagem, passadoria e limpeza profissional.
- O X marca o processo que não é permitido. Sem lavagem permitida, a etiqueta tem de indicar limpeza profissional.
- Fungo é provável com umidade relativa acima de 70%, diz um manual brasileiro de conservação de acervos.
- Têxtil não se guarda em saco plástico nem em pote hermético: a umidade condensa lá dentro.
- A luz é o principal fator de deterioração de um têxtil, segundo o mesmo manual. Sol direto cobra cor e elasticidade.
Links de referência
- Inmetro, qual norma sobre os tratamentos de cuidado para a conservação do produto têxtil deve ser utilizada
- Inmetro, quais são as informações obrigatórias no produto e na embalagem dos produtos têxteis
- Inmetro, cartilha Produtos Têxteis, 2021
- Ipem-SP, símbolos têxteis
- Agência SP, Veja cuidados ao cortar a etiqueta das roupas, segundo o Ipem-SP, 2026
- Teixeira e Ghizoni, Conservação preventiva de acervos, Fundação Catarinense de Cultura, 2012
- Museu da Imigração do Estado de São Paulo, Tecidos e afetos: orientações básicas para conservação de roupinhas e enxovais, 2018
- Canadian Conservation Institute, Textiles and the Environment, CCI Notes 13/1, 1986, revisto em 2013
- Zinn e Bockmühl, Did granny know best? Evaluating the antibacterial, antifungal and antiviral efficacy of acetic acid for home care procedures, BMC Microbiology, 2020
- McQueen, Eyres e Laing, Textile sorption and release of odorous volatile organic compounds from a synthetic sweat solution, Textile Research Journal, 2024
- Anvisa, Processamento de roupas de serviços de saúde: prevenção e controle de riscos, 2009
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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