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Guia do brechó #013

Bazar beneficente: como funciona e de onde vêm as peças

Como funciona um bazar beneficente: quem organiza, de onde vêm as peças e o que a lei e a Receita Federal dizem da entidade que o promove.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 7 min

Caixa com a palavra DONATE escrita e roupas coloridas transbordando por cima.
Foto: Towfiqu barbhuiya / Pexels

Bazar beneficente é uma venda de artigos, em geral roupas e objetos usados, promovida por uma igreja, um clube ou outra entidade, com o dinheiro destinado à causa de quem organiza. As peças chegam por doação, e um estudo feito em bairros populares de Belo Horizonte registra que a roupa doada em mau estado não vai para a venda: é repassada a quem precisa. Nos textos legais consultados, as regras falam da entidade que organiza; o bazar só é nomeado numa regra da Receita Federal sobre mercadorias apreendidas.

O que é um bazar beneficente?

O dicionário Aulete traz, entre os sentidos de bazar, a venda de artigos variados em igrejas, clubes e similares, geralmente para fins beneficentes, e também o pavilhão, a tenda ou a sala onde essa venda acontece. É um sentido entre vários da palavra, e o primeiro guia mostra como o dicionário separa bazar e brechó.

Num estudo de 2021 sobre roupas usadas em bairros populares de Belo Horizonte, os autores descrevem os bazares como eventos, muitas vezes de caráter beneficente, que têm entre seus objetivos vender roupas e objetos usados. A pesquisa mostra que o nome cobre coisas diferentes: há o bazar de instituição e há o que começa na casa ou na garagem de alguém, para um grupo de amigos e conhecidos. Este guia trata do primeiro.

Quem organiza?

O estudo é de Pinto, Zampier, Anjos e Ássimos, publicado na Revista Gestão e Desenvolvimento. Os pesquisadores fizeram 25 entrevistas em profundidade, entre elas com 3 organizadores de bazares e 10 consumidores de bazares, além de donas de brechó, uma sacoleira e consumidoras de brechó. Falam em "instituições que promovem os bazares", sem listar quais.

Para o público, a ideia aparece com mais nome. Numa pesquisa com 515 mulheres da Região Metropolitana de Campinas e do interior paulista (Farias, UNIMEP, 2016), o questionário listava como um dos lugares de compra de segunda mão o "bazar beneficente (igreja católica ou evangélica, centros espíritas, ONGs, entre outros)". Quem organiza, portanto, são entidades de natureza variada, muitas delas religiosas ou assistenciais.

De onde vêm as peças?

Da doação. No estudo de Belo Horizonte, quem doa roupa é um dos cinco públicos do mercado de segunda mão, ao lado das vendedoras que comercializam roupa usada nas comunidades (as sacoleiras), dos donos de brechó, dos organizadores de bazar e dos consumidores. Os autores registram que a grande maioria dos entrevistados prefere não guardar roupa, e que a peça sai por doação, venda, troca ou outra forma.

Na pesquisa paulista de 2016, doar roupa em boas condições é uma prática mais comum, entre as entrevistadas, do que vendê-la a brechós. Ela é uma amostra por conveniência de mulheres de uma região, e não retrata o país. O que muda, na lei, entre doar, vender e consignar está no guia como funciona a consignação.

Parte do que chega não é vendida. Segundo os organizadores ouvidos em Belo Horizonte, como as roupas são doadas, muitas chegam em estado ruim. Essas não vão para a venda: são doadas a pessoas carentes ou a moradores das próprias instituições que promovem os bazares.

Existe também uma origem pública. A Receita Federal destina mercadorias apreendidas ou abandonadas a órgãos públicos e a organizações da sociedade civil. A página do órgão, atualizada em 31/08/2026, não cita roupa nem outro tipo específico de mercadoria: trata de "mercadorias" em geral.

O bazar como lugar de convívio

O estudo de Belo Horizonte dá peso a outra função do bazar: a de ponto de encontro. Segundo os autores, brechós e, principalmente, bazares são locais para conversar, negociar, trocar roupas e emprestar, onde as relações se constroem de forma espontânea, diferente da formalidade do varejo tradicional. Eles ilustram a ideia com o relato de uma sacoleira, para quem a compra acaba virando pretexto para construir relações.

Os autores contam ainda que, em bairros populares, é comum o bazar nascer dentro de casa. E registram que pessoas de renda mais alta também fazem seu "bota-fora" e convidam amigos e familiares: um bazar de outro tipo, sem instituição por trás.

O que a lei diz da entidade que faz o bazar

A lei não descreve o bazar. Descreve a entidade. Nos textos oficiais consultados, os pontos são estes:

Nenhum desses textos cita a palavra bazar. Se a receita de um bazar de determinada entidade fica dentro da imunidade, a Constituição liga a resposta à relação com as finalidades essenciais da entidade e aos requisitos da lei. É uma questão de cada caso, e este guia não a decide.

O que a Receita Federal diz do bazar

A palavra aparece, sim, na página da Receita Federal sobre doações de mercadorias apreendidas ou abandonadas. Segundo a página, as organizações da sociedade civil só podem repassar essas mercadorias a pessoas físicas, e só se o documento de destinação não vedar a transferência. Os casos previstos são:

Valem ainda três regras:

Isso vale para a mercadoria que veio dessa doação. Roupa doada por moradores, a origem descrita nos estudos, não aparece nessa regra.

O que este guia não afirma

Pontos importantes

Links de referência

  1. Pinto, Zampier, Anjos e Ássimos, Nas teias da (re)significação, Revista Gestão e Desenvolvimento, 2021
  2. Aulete Digital, verbete bazar
  3. Receita Federal, Doações de mercadorias apreendidas ou abandonadas (atualizada em 31/08/2026)
  4. Constituição Federal, artigo 150, inciso VI e parágrafo 4º
  5. Código Tributário Nacional, artigo 14
  6. Código Civil, artigos 44 e 53
  7. Lei nº 13.019, de 2014, artigo 2º
  8. Farias, Consumo consciente de moda e o metabolismo futuro do guarda-roupa, UNIMEP, 2016
  9. Foto de capa: Towfiqu barbhuiya, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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