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Moda circular: dados e mercado #015

Brechó de luxo: por que ele evita o nome brechó

O que é brechó de luxo e por que essas lojas evitam a palavra brechó, segundo um estudo de 2023 com 13 entrevistas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 6 min

Três bolsas de couro, duas marrons e uma preta, lado a lado sobre fundo claro.
Foto: cottonbro studio / Pexels

Segundo um estudo brasileiro de 2023, o comércio de roupa de grife de segunda mão é conhecido no país como brechó de luxo, e é justamente a palavra "brechó" que as lojas do segmento evitam. Nas entrevistas, elas se apresentavam como lojas de luxo, para se aproximar desse universo e se afastar da imagem estigmatizada do comércio de roupa usada. O estudo descreve essa estratégia de posicionamento; não mede preço, qualidade nem autenticidade das peças.

O que é um brechó de luxo?

É a loja que vende vestuário de luxo de segunda mão. O estudo usa "segunda mão" como categoria ampla, que reúne subcategorias como vintage, retrô e peça de coleção. Para uma das donas ouvidas, o que define o brechó de luxo é trabalhar só com grifes nacionais e importadas, marcas conceituadas. Outra descreveu o luxo, nesse mercado, como ter variedade de produtos bons e marcas de maior prestígio que as das concorrentes.

A palavra "luxo", aliás, não ficou presa ao produto. Para algumas clientes ouvidas, luxo também é tempo, amizade, saúde e paz.

Quem fez o estudo, e como?

O artigo é de Ronan Leandro Zampier, da Universidade do Estado de Minas Gerais, Rita de Cássia Pereira Farias, da Universidade Federal de Viçosa, e Marcelo de Rezende Pinto, da PUC Minas. Saiu na Revista Gestão & Conexões, da UFES, em 21 de março de 2023, depois de submetido em julho de 2022 e aceito em novembro do mesmo ano.

É uma pesquisa qualitativa, com observação direta em lojas e 13 entrevistas com 14 mulheres de Belo Horizonte e do Rio de Janeiro:

As donas foram escolhidas por conveniência: entraram as que aceitaram falar. O campo começou em Belo Horizonte e foi estendido ao Rio quando o acesso às lojas mineiras se esgotou. As falas foram analisadas pela análise crítica do discurso, na versão proposta por Fairclough. O título do artigo vem da fala de uma das donas: "não é brechó, é loja, é uma loja, entendeu?".

Por que evitar a palavra "brechó"?

O ponto de partida do estudo é uma tensão. O luxo remete a requinte e exclusividade; a roupa de segunda mão, segundo os autores, ainda é cercada de estigmas que fazem do consumo um tabu no Brasil. Eles resumem esse estigma, citando uma pesquisa de 2008, como a ideia de algo popular, sujo, com cheiro de naftalina, e de roupa velha, de defunto.

Essa é a descrição de uma imagem social, não um retrato dos brechós. Os próprios autores dizem que a barreira diminuiu nos últimos anos, embora o sistema de moda, com sua ênfase no novo, tenda a reforçá-la.

Nesse contexto, as lojas de luxo buscam se afastar do brechó para serem lidas como luxo: foi o que o estudo encontrou, nos espaços e nas falas.

Como essas lojas marcam a diferença?

Os autores descrevem três frentes:

A tese de doutorado de Zampier, de 2019, que também se passa em Belo Horizonte e no Rio, acrescenta o lado de quem compra: as clientes tratam o brechó de luxo como oportunidade, com significados como bom negócio, achado e nostalgia. A mesma tese descreve, entre o estigma e o prestígio, uma zona de tensão para quem participa desse mercado.

O que os autores concluem?

O resultado tem um lado contraditório. Ao se afastar do brechó tradicional para marcar o luxo, essas lojas mantêm, no discurso, os estigmas que existem sobre ele, em vez de enfrentá-los. Os autores falam em tentativa de esconder ou desviar a atenção dos aspectos negativos associados ao brechó, para reforçar os aspectos sedutores da loja de luxo. O artigo diz também que um estudo anterior, de Zampier e outros (2019), com lojas de luxo na internet, já tinha encontrado a mesma evitação do termo.

O estigma, porém, não aparece igual em todo público. Outro estudo de dois dos mesmos autores, de 2021, com 25 entrevistas em bairros populares de Belo Horizonte, registrou que boa parte dos entrevistados não via dificuldade em vestir roupa que já foi usada por outras pessoas. É um dado qualitativo, e não uma medida; isso sugere que o peso do estigma depende de quem é perguntado.

O que o estudo não responde

Brechó, loja, segunda mão

Nos dicionários, brechó é o comércio de roupas e objetos usados, como mostrou o primeiro guia: a definição é pelo uso, não pela marca. A palavra vem do nome Belchior, e o estudo cita a mesma origem. O que ele acrescenta é que o nome carrega mais do que o significado: carrega uma imagem, e há quem prefira não carregá-la.

Para a diferença entre vintage e retrô, há um guia próprio. Para a história dessa imagem, o guia sobre a história do brechó no Brasil, e para o que se sabe sobre o medo da roupa usada, o guia sobre roupa usada e saúde.

Pontos importantes

Links de referência

  1. Zampier, Farias e Pinto, "Não é Brechó, é Loja", Revista Gestão & Conexões, UFES, v. 12, n. 1, 2023
  2. Zampier, Consumo de vestuário de luxo de segunda mão: estigma, autenticidade e distinção, tese de doutorado, UFV, 2019
  3. Pinto, Zampier, Anjos e Ássimos, Nas teias da (re)significação, Revista Gestão e Desenvolvimento, Feevale, 2021
  4. Foto de capa: cottonbro studio, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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