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Moda circular: dados e mercado #026

Para onde vai a roupa descartada: lixo têxtil, reciclagem e impacto da moda

O que se sabe do destino da roupa descartada no Brasil: estimativas de lixo têxtil, o que a lei diz de reciclagem e o impacto, cada número com ano e fonte.

Por Ju do Brechó OficinaLeitura de 7 min

Montanha de roupas variadas amontoadas, vista de cima.
Foto: NEOSiAM 18+ / Pexels

Depende do caminho. A roupa jogada no lixo comum entra na conta do lixo urbano, e em 2024, segundo a ABREMA, a associação brasileira do setor de resíduos, 34% do lixo urbano gerado no país foi para lixões ou aterros controlados. A roupa doada ou revendida pode seguir outro destino, e as fontes que abrimos não dizem quanto; também não há um número único de lixo têxtil: as estimativas vão de 192 mil a 4 milhões de toneladas por ano.

Quanto lixo têxtil o Brasil gera?

As fontes abertas não batem, e este texto deixa os números lado a lado em vez de escolher um.

A diferença entre a menor e a maior estimativa é de cerca de 20 vezes, e as reportagens não detalham o cálculo. Uma hipótese, não confirmada por elas, é que os números meçam recortes diferentes: só a roupa descartada, couro e borracha junto, sobras de fabricação.

Para onde vai o lixo comum?

O Panorama 2025 acompanha o caminho do lixo urbano em 2024:

Esses percentuais são do lixo urbano inteiro. Para a roupa, a leitura é uma inferência: a que vai para o lixo comum segue o mesmo caminho. Um artigo de 2025 da revista Transverso descreve isso da mesma forma, dizendo que o descarte de roupa pós-consumo frequentemente segue direto para o cesto de lixo e depois para o aterro.

A lei fixa uma ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e, por último, a disposição final. O aterro está no fim da fila, como explicamos em o que é moda circular.

E a reciclagem de roupa no Brasil?

A lei. A Política Nacional de Resíduos Sólidos lista, no artigo 33, os produtos com logística reversa obrigatória: agrotóxicos, pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, lâmpadas e eletroeletrônicos. Roupa não está na lista, e o capítulo de logística reversa do Panorama 2025 reúne os 13 sistemas em operação em 2024, nenhum de roupa. Em outubro de 2025 entrou o 14º, o de embalagens plásticas. A lei permite ampliar a lista por regulamento ou por acordo setorial.

O projeto. Tramita na Câmara dos Deputados o PL 270/2022, que cria um sistema nacional de logística reversa de resíduos têxteis e altera os artigos 33 e 34 da lei. Em 10 de outubro de 2026, a ficha do projeto o mostrava como pronto para pauta na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, com parecer da relatora, de 3 de junho de 2026, pela aprovação com substitutivo. Projeto não é lei: enquanto não virar, nada muda.

A coleta. O artigo da Transverso, com dados do SNIS, registra que a coleta seletiva alcança 32,2% dos 5.570 municípios e que os resíduos têxteis não estão entre os materiais coletados.

A indústria. O retrato aberto mais detalhado que encontramos é de 2014 e 2015, publicado em 2018 na revista Gestão & Produção. Os autores localizaram 21 empresas de reciclagem têxtil no país e visitaram cinco, em São Paulo: três usavam só sobra de fábrica, e duas também usavam resíduo de pós-consumo. As empresas apontaram custo de logística e falta de incentivo fiscal, que em alguns casos igualam o preço da fibra reciclada ao da matéria-prima nova, e levam parte delas a comprar resíduo importado, mais barato e já triado por composição e tonalidade. Em 2015, o Brasil importou 8,9 mil toneladas de retalhos e trapos têxteis, segundo o artigo. É um dado antigo, e não achamos levantamento mais recente aberto.

Transformar roupa velha em roupa nova também é pouco comum fora do Brasil. A Agência Europeia do Meio Ambiente diz, em 2024, que a maior parte das fibras recicladas na Europa vira pano de limpeza ou material de isolamento, e lista mais de 50 recicladoras de fibra para fibra, algumas ainda em fase piloto. O relatório de 2017 da Fundação Ellen MacArthur estimou em menos de 1% o material que voltou a ser roupa em 2015.

E a roupa doada ou revendida?

Doar e revender são formas de reuso, que a ordem da lei põe antes da reciclagem, mas as fontes que abrimos não permitem dizer quanto da roupa doada é reaproveitada no Brasil: não encontramos estatística pública sobre isso.

Na Europa há número. A Agência Europeia do Meio Ambiente estimou, para 2020, 6,95 milhões de toneladas de resíduo têxtil na União Europeia, cerca de 16 kg por pessoa. Desse total, 4,4 kg por pessoa foram coletados separadamente para reuso e reciclagem, e 11,6 kg por pessoa foram para o lixo misto das casas. A agência diz que o destino das roupas usadas que a União Europeia exporta é muito incerto.

Fora da Europa, há um caso relatado. Segundo a aduana do Chile, citada pela AFP em 2022, entraram 46.287 toneladas de roupa usada no país em 2021. A reportagem diz que mais da metade é descartada e acaba no deserto do Atacama, mas não cita fonte para esse trecho.

E o impacto?

Os dados de impacto mais recentes e abertos que encontramos são da Europa, não do Brasil. Segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente, o consumo de têxteis na União Europeia teve, em 2020, a terceira maior pressão sobre água e uso da terra e a quinta sobre matérias-primas e emissões de gases de efeito estufa, entre as categorias de consumo. Por pessoa, a agência estima 9 m³ de água, 400 m² de terra, 391 kg de matérias-primas e cerca de 270 kg de carbono; a página não informa o ano desses valores por pessoa.

Esses números medem produção e consumo, não só descarte. Para o mundo, o relatório de 2017 estimou que 73% do material das roupas terminou em aterro ou incineração em 2015, o mesmo número do texto sobre moda circular.

O que este texto não afirma

O modelo de produção que está por trás do volume de roupa é tema de fast fashion e slow fashion.

Pontos importantes

Links de referência

  1. ABREMA, Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025 (versão em inglês, dados de 2024)
  2. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, Política Nacional de Resíduos Sólidos
  3. Câmara dos Deputados, ficha de tramitação do PL 270/2022
  4. Agência Câmara, Projeto cria sistema nacional de logística reversa para resíduos têxteis, 2022
  5. Ecodebate, via IHU Unisinos, Domicílios brasileiros descartam 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, abril de 2025
  6. Carta Capital, Resíduos têxteis: por que é tão difícil reciclar roupas?, outubro de 2023
  7. Amaral et al., Reciclagem industrial e reuso têxtil no Brasil, Gestão & Produção, 2018
  8. Aquim e Franzato, Logística reversa do resíduo têxtil: contribuições do design, Transverso, 2025
  9. Agência Europeia do Meio Ambiente, Management of used and waste textiles in Europe's circular economy, 2024
  10. Agência Europeia do Meio Ambiente, What are the environmental impacts of the textile industry? (FAQ, 2024)
  11. AFP, via Diário de Pernambuco, Deserto do Atacama se transforma em lixão, 2022
  12. Foto de capa: NEOSiAM 18+, Pexels

Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.

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