Moda circular: dados e mercado #026
Para onde vai a roupa descartada: lixo têxtil, reciclagem e impacto da moda
O que se sabe do destino da roupa descartada no Brasil: estimativas de lixo têxtil, o que a lei diz de reciclagem e o impacto, cada número com ano e fonte.

Depende do caminho. A roupa jogada no lixo comum entra na conta do lixo urbano, e em 2024, segundo a ABREMA, a associação brasileira do setor de resíduos, 34% do lixo urbano gerado no país foi para lixões ou aterros controlados. A roupa doada ou revendida pode seguir outro destino, e as fontes que abrimos não dizem quanto; também não há um número único de lixo têxtil: as estimativas vão de 192 mil a 4 milhões de toneladas por ano.
Quanto lixo têxtil o Brasil gera?
As fontes abertas não batem, e este texto deixa os números lado a lado em vez de escolher um.
- ABREMA, 2025 (dados de 2024). O lixo urbano do país foi estimado em 81,6 milhões de toneladas, cerca de 384 kg por habitante. O Panorama lista roupa entre os itens desse lixo, mas, na versão em inglês que abrimos, não traz uma linha só para têxteis.
- Ecodebate, abril de 2025, com dados da consultoria S2F Partners. Cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis descartadas por ano pelos domicílios, e cerca de 44 kg de roupas e calçados por domicílio no ano anterior à reportagem. A mesma reportagem traz 5,6% de "têxteis, couros e borrachas" no lixo de 2023, ou 4,6 milhões de toneladas.
- Carta Capital, outubro de 2023. Atribui os 4 milhões de toneladas à Abrelpe e, a partir de 6,3 bilhões de peças compradas em 2022 (IEMI), estima 192 mil toneladas de resíduo têxtil.
A diferença entre a menor e a maior estimativa é de cerca de 20 vezes, e as reportagens não detalham o cálculo. Uma hipótese, não confirmada por elas, é que os números meçam recortes diferentes: só a roupa descartada, couro e borracha junto, sobras de fabricação.
Para onde vai o lixo comum?
O Panorama 2025 acompanha o caminho do lixo urbano em 2024:
- segundo o Panorama, 85,5% do que foi gerado seguiu para disposição final, 69,7 milhões de toneladas;
- dessa parte, segundo os dados do Panorama, 59,7% foi para aterro sanitário, a destinação considerada adequada; os 40,3% restantes, mais de 28 milhões de toneladas, foram para áreas inadequadas, como lixões e aterros controlados;
- cerca de 8,7% do lixo gerado, segundo o Panorama, foi enviado para a reciclagem de resíduos secos, e perto de dois terços desse volume foram coletados por catadores independentes.
Esses percentuais são do lixo urbano inteiro. Para a roupa, a leitura é uma inferência: a que vai para o lixo comum segue o mesmo caminho. Um artigo de 2025 da revista Transverso descreve isso da mesma forma, dizendo que o descarte de roupa pós-consumo frequentemente segue direto para o cesto de lixo e depois para o aterro.
A lei fixa uma ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e, por último, a disposição final. O aterro está no fim da fila, como explicamos em o que é moda circular.
E a reciclagem de roupa no Brasil?
A lei. A Política Nacional de Resíduos Sólidos lista, no artigo 33, os produtos com logística reversa obrigatória: agrotóxicos, pilhas e baterias, pneus, óleos lubrificantes, lâmpadas e eletroeletrônicos. Roupa não está na lista, e o capítulo de logística reversa do Panorama 2025 reúne os 13 sistemas em operação em 2024, nenhum de roupa. Em outubro de 2025 entrou o 14º, o de embalagens plásticas. A lei permite ampliar a lista por regulamento ou por acordo setorial.
O projeto. Tramita na Câmara dos Deputados o PL 270/2022, que cria um sistema nacional de logística reversa de resíduos têxteis e altera os artigos 33 e 34 da lei. Em 10 de outubro de 2026, a ficha do projeto o mostrava como pronto para pauta na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, com parecer da relatora, de 3 de junho de 2026, pela aprovação com substitutivo. Projeto não é lei: enquanto não virar, nada muda.
A coleta. O artigo da Transverso, com dados do SNIS, registra que a coleta seletiva alcança 32,2% dos 5.570 municípios e que os resíduos têxteis não estão entre os materiais coletados.
A indústria. O retrato aberto mais detalhado que encontramos é de 2014 e 2015, publicado em 2018 na revista Gestão & Produção. Os autores localizaram 21 empresas de reciclagem têxtil no país e visitaram cinco, em São Paulo: três usavam só sobra de fábrica, e duas também usavam resíduo de pós-consumo. As empresas apontaram custo de logística e falta de incentivo fiscal, que em alguns casos igualam o preço da fibra reciclada ao da matéria-prima nova, e levam parte delas a comprar resíduo importado, mais barato e já triado por composição e tonalidade. Em 2015, o Brasil importou 8,9 mil toneladas de retalhos e trapos têxteis, segundo o artigo. É um dado antigo, e não achamos levantamento mais recente aberto.
Transformar roupa velha em roupa nova também é pouco comum fora do Brasil. A Agência Europeia do Meio Ambiente diz, em 2024, que a maior parte das fibras recicladas na Europa vira pano de limpeza ou material de isolamento, e lista mais de 50 recicladoras de fibra para fibra, algumas ainda em fase piloto. O relatório de 2017 da Fundação Ellen MacArthur estimou em menos de 1% o material que voltou a ser roupa em 2015.
E a roupa doada ou revendida?
Doar e revender são formas de reuso, que a ordem da lei põe antes da reciclagem, mas as fontes que abrimos não permitem dizer quanto da roupa doada é reaproveitada no Brasil: não encontramos estatística pública sobre isso.
Na Europa há número. A Agência Europeia do Meio Ambiente estimou, para 2020, 6,95 milhões de toneladas de resíduo têxtil na União Europeia, cerca de 16 kg por pessoa. Desse total, 4,4 kg por pessoa foram coletados separadamente para reuso e reciclagem, e 11,6 kg por pessoa foram para o lixo misto das casas. A agência diz que o destino das roupas usadas que a União Europeia exporta é muito incerto.
Fora da Europa, há um caso relatado. Segundo a aduana do Chile, citada pela AFP em 2022, entraram 46.287 toneladas de roupa usada no país em 2021. A reportagem diz que mais da metade é descartada e acaba no deserto do Atacama, mas não cita fonte para esse trecho.
E o impacto?
Os dados de impacto mais recentes e abertos que encontramos são da Europa, não do Brasil. Segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente, o consumo de têxteis na União Europeia teve, em 2020, a terceira maior pressão sobre água e uso da terra e a quinta sobre matérias-primas e emissões de gases de efeito estufa, entre as categorias de consumo. Por pessoa, a agência estima 9 m³ de água, 400 m² de terra, 391 kg de matérias-primas e cerca de 270 kg de carbono; a página não informa o ano desses valores por pessoa.
Esses números medem produção e consumo, não só descarte. Para o mundo, o relatório de 2017 estimou que 73% do material das roupas terminou em aterro ou incineração em 2015, o mesmo número do texto sobre moda circular.
O que este texto não afirma
- quanto lixo têxtil o Brasil gera: as três estimativas abertas variam cerca de 20 vezes;
- que a roupa jogada no lixo comum vá para aterro sanitário: do que foi para disposição final em 2024, 40,3% foi para áreas inadequadas, e o Panorama não separa a roupa;
- quanto da roupa doada é reaproveitada: não encontramos número brasileiro;
- que os números da Europa e do Chile valham para o Brasil;
- que o PL 270/2022 vá virar lei: a ficha da Câmara mostra só a tramitação.
O modelo de produção que está por trás do volume de roupa é tema de fast fashion e slow fashion.
Pontos importantes
- Em 2024, segundo a ABREMA, 34% do lixo urbano gerado no Brasil foi para lixões ou aterros controlados. Roupa jogada no lixo comum entra nessa conta.
- As estimativas de lixo têxtil no Brasil vão de 192 mil a 4 milhões de toneladas por ano, e as reportagens não detalham o cálculo.
- O Panorama de 2025 lista 13 sistemas de logística reversa em operação em 2024. Roupa não está entre eles.
- O PL 270/2022, que cria a logística reversa de resíduos têxteis, estava pronto para pauta na Câmara em 10/2026, com parecer favorável da relatora.
- Na UE, em 2020, 11,6 kg de resíduo têxtil por pessoa foram para o lixo misto e 4,4 kg para coleta separada, segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente.
- Os dados de impacto mais recentes que abrimos são da Europa: em 2020, o consumo de têxteis teve a terceira maior pressão sobre água e uso da terra.
Links de referência
- ABREMA, Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025 (versão em inglês, dados de 2024)
- Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, Política Nacional de Resíduos Sólidos
- Câmara dos Deputados, ficha de tramitação do PL 270/2022
- Agência Câmara, Projeto cria sistema nacional de logística reversa para resíduos têxteis, 2022
- Ecodebate, via IHU Unisinos, Domicílios brasileiros descartam 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, abril de 2025
- Carta Capital, Resíduos têxteis: por que é tão difícil reciclar roupas?, outubro de 2023
- Amaral et al., Reciclagem industrial e reuso têxtil no Brasil, Gestão & Produção, 2018
- Aquim e Franzato, Logística reversa do resíduo têxtil: contribuições do design, Transverso, 2025
- Agência Europeia do Meio Ambiente, Management of used and waste textiles in Europe's circular economy, 2024
- Agência Europeia do Meio Ambiente, What are the environmental impacts of the textile industry? (FAQ, 2024)
- AFP, via Diário de Pernambuco, Deserto do Atacama se transforma em lixão, 2022
- Foto de capa: NEOSiAM 18+, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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