História da moda e do brechó #020
Moda dos anos 90: como era e o que dizem que voltou
Como era a moda dos anos 90: grunge, slip dress, minimalismo e plataforma, e a passarela brasileira ganhando calendário. O que dizem sobre o que voltou.

A moda dos anos 90 foi a da roupa descontraída: grunge e roupa larga no começo, minimalismo depois, e a era das supermodelos. No Brasil, o que as fontes abertas mostram é outra mudança: a moda de autor ganhou passarela própria e um calendário. Quanto ao que voltou, as fontes dizem pouco, e este texto separa o que é medido do que é só comentado.
Um vestido: do grunge para a passarela
Segundo a linha do tempo do Fashion Institute of Technology (FIT), de Nova York, ao fim do século XX a moda chegou ao ponto mais casual. Na primeira parte da década, homens e mulheres adotaram o grunge, estilo que surgiu em Seattle no fim dos anos 80, com jeans largos e surrados, camisas de flanela e botas Doc Martens. Para as mulheres, o FIT inclui os slip dresses, vestidos simples de corte camisola, muitas vezes usados com botas pesadas. A página liga o gosto por roupa vintage à multiplicação das lojas de segunda mão.
O grunge também chegou à passarela. O Museum at FIT guarda um slip dress de Marc Jacobs para a Perry Ellis, de estampa floral em preto e branco, em tecido sintético, com 38 botões minúsculos. O registro do museu data o vestido como primavera de 1993 e diz que ele foi feito para uma coleção de 1992 da marca, inspirada no estilo grunge das ruas. Ainda segundo o museu, o corte sem estrutura e fluido afastava-se dos modelos estruturados dos anos 80, que enfatizavam um físico musculoso. A linha do tempo do FIT coloca o grunge na passarela em 1993 e diz que Jacobs foi depois demitido da Perry Ellis por ter criado essa coleção. As duas datas, 1992 e 1993, parecem se referir à mesma coleção, feita num ano para a estação do seguinte, mas isso é inferência.
À medida que a década avançou, o FIT descreve uma moda mais enxuta, em que o minimalismo passou a ser o padrão, e diz que os slip dresses resumiam esse visual. De 1996 até o fim da década, aponta a roupa de estilo boêmio como a tendência dominante na moda feminina.
Uma foto: o contrário do glamour
O V&A guarda uma fotografia de Corinne Day de 1993, feita para o artigo "Under-exposure", da Vogue britânica de junho daquele ano: Kate Moss diante de uma parede branca com luzes coloridas. Segundo o texto do museu, Day deu uma contribuição própria à fotografia de moda do começo dos anos 90 e levou Moss a alguns de seus primeiros trabalhos importantes. O V&A a descreve como o contraste com a imagem tradicional e glamorosa que dominava a fotografia de moda no fim dos anos 80, com uma abordagem mais informal, confrontadora e confessional, em ambientes cotidianos e com modelos incomuns, às vezes andróginos.
A década teve também o outro polo. O FIT diz que o fenômeno das supermodelos chegou ao auge nos anos 90 e lembra o desfile do outono/inverno de 1991 de Versace, em Milão, em que quatro delas desfilaram de braços dados.
Um sapato: a plataforma que ficou famosa
Em 1993, a modelo Naomi Campbell caiu na passarela de Vivienne Westwood usando plataformas azuis. O V&A conta que o salto tinha subido a mais de 21 cm até 1993 e que o museu adquiriu os sapatos originais no mesmo ano, com o nome da modelo escrito por dentro, a caneta azul. A peça é da coleção de outono/inverno de 1993.
E no Brasil, o que mudou foi a passarela
Os pesquisadores Marcos Paulo do Nascimento Pereira e Marcos da Costa Braga, da USP, contam a origem da São Paulo Fashion Week em artigo de 2024 na revista ModaPalavra. O cenário era de crise. Segundo o artigo, a abertura comercial no governo Collor e a inflação atingiram a indústria têxtil, e o jornal O Estado de S. Paulo noticiou em 1992 que 800 confecções tinham fechado as portas desde 1989. Ao mesmo tempo, nomes como Walter Rodrigues, Alexandre Herchcovitch, Gloria Coelho e Fause Haten construíam carreira em São Paulo, e a cena de clubes da noite paulistana, que a jornalista Erika Palomino passou a cobrir em 1992 na coluna "Noite Ilustrada", da Folha de S.Paulo, juntou parte deles.
Dois eventos marcam a virada:
- Phytoervas Fashion, 1994. Idealizado em 1993 por Paulo Borges e pela empresária Cristiana Arcangeli, abriu em 22 de fevereiro de 1994, num galpão na Vila Olímpia, com três desfiles, um por noite: Walter Rodrigues, Cia. do Linho e Alexandre Herchcovitch. Segundo o artigo, reuniu mais de 800 pessoas no primeiro dia.
- MorumbiFashion Brasil, 1996. Organizado por Paulo Borges com patrocínio do Morumbi Shopping, começou em 22 de julho de 1996, com 31 marcas, e inaugurou o Calendário Oficial da Moda. Grifes autorais, como Alexandre Herchcovitch e Lino Villaventura, desfilaram ao lado de marcas muito comerciais, como Zoomp e Forum. O evento passou a se chamar São Paulo Fashion Week em 2001, na décima edição.
O artigo lembra ainda que os primeiros cursos superiores de moda do país são o da Faculdade Santa Marcelina (1988) e o da Anhembi Morumbi (1990). Para o estilista Walter Rodrigues, em depoimento aos autores, foi nos anos 90 que os nomes de marca passaram a levar a assinatura de quem cria, e é então que, nas palavras dele, "a autoralidade começa a aparecer".
O que voltou?
Medir o que voltou a ser usado exige dado de venda ou de pesquisa com consumidores, e nenhuma das fontes abertas para este texto traz isso. O que existe é de dois tipos:
- Imprensa, com data e autoria. Em reportagem publicada pela Bloomberg Línea em 19 de outubro de 2025, Sarah Rappaport escreve que as tendências dos anos 90 estão por toda parte nas passarelas e nas lojas, como saias xadrez que parecem ter saído do filme As Patricinhas de Beverly Hills. O FIT também cita esse filme ao descrever o visual de colegial dos anos 90: suéteres de tamanho menor, camisetas tipo baby look e meias até o joelho.
- Pesquisa, com limite. Pesquisadores da Northwestern University, que analisaram cerca de 37 mil imagens de roupas femininas de 1869 até hoje, descrevem uma onda de estilos que se repete mais ou menos a cada duas décadas. O trabalho foi apresentado em um congresso da Sociedade Americana de Física em 2026, e a própria universidade nota que, a partir dos anos 80, o padrão fica menos claro, com mais de um comprimento de saia ao mesmo tempo. Sobre revisão por pares, a nota não diz nada.
A própria linha do tempo do FIT mostra que a volta de décadas passadas não é novidade: nos primeiros anos dos 90, ela registra o retorno de estilos dos anos 60 e 70, como minissaias, calças boca de sino e o punk.
Como datar sem exagerar
O grunge é de 1992-1993 na passarela e de antes na rua; o slip dress aparece no FIT tanto no grunge, com botas pesadas, quanto no minimalismo; a plataforma de Westwood é de 1993; o MorumbiFashion Brasil é de 1996; o boêmio, de 1996 em diante. "Anos 90" cobre tudo isso, de modo que o nome da década sozinho não data uma peça. Para a diferença entre peça de época, estilo retrô e roupa só usada, veja Vintage, retrô ou só usada.
A década seguinte está em Moda dos anos 2000: o que é o Y2K. A anterior, que ficou resumida à ombreira, está em Moda dos anos 80.
O que este texto não afirma
- O que se vestia na rua, no Brasil, nos anos 90. A fonte brasileira trata de passarela, calendário e mercado.
- O que voltou a ser usado. Há comentário de imprensa e uma pesquisa sobre ciclos, mas não uma medida de uso.
- Que o ciclo de 20 anos seja regra. A própria pesquisa diz que, desde os anos 80, o padrão ficou menos claro.
Pontos importantes
- Para o FIT, a moda chegou ao fim do século no ponto mais casual: grunge e roupa larga no começo, minimalismo à medida que a década avançou.
- O Museum at FIT tem um slip dress de Marc Jacobs para a Perry Ellis, de primavera de 1993, feito para uma coleção de 1992 inspirada no estilo grunge das ruas.
- Uma foto de Corinne Day com Kate Moss, de 1993, é lida pelo V&A como a imagem oposta ao glamour da fotografia de moda do fim dos anos 80.
- No Brasil, o Phytoervas Fashion abriu em 22 de fevereiro de 1994 e o MorumbiFashion Brasil, de 1996, inaugurou o Calendário Oficial da Moda.
- Uma pesquisa da Northwestern University, apresentada em 2026, descreve um ciclo de cerca de 20 anos para o retorno de estilos. Ela não é prova do que voltou.
- As fontes tratam de museu, passarela e mercado. Elas não medem o que se vestia na rua no Brasil nem o que voltou a ser usado.
Links de referência
- Pereira e Braga, São Paulo Fashion Week: contribuições à história da moda no Brasil, ModaPalavra, v. 17, n. 42, 2024
- Fashion Institute of Technology (FIT), Fashion History Timeline, 1990-1999
- Museum at FIT, Dress, Marc Jacobs para Perry Ellis, primavera de 1993 (2014.18.1)
- V&A, Kate Moss, Under Exposure, 1993, fotografia de Corinne Day (E.73-1997)
- V&A, Top 10 Naomi Campbell looks, 4 de junho de 2024
- Rappaport, Nostalgia dos anos 90 domina cultura pop, Bloomberg Línea, 19 de outubro de 2025
- Northwestern University, Bell-bottoms today, miniskirts tomorrow, 18 de março de 2026
- Foto de capa: Antoni Shkraba, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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Índice do blog
- #025Brechó masculino: o que olhar ao comprar roupa de homem usada
- #024Moda dos anos 80: como era e o que ficou
- #023Como desapegar de roupas: por onde começar
- #022Quantos brechós existem no Brasil? O número que se repete e o que ele mede
- #021Como tirar mancha antiga de roupa, e quando não insistir
- #020Moda dos anos 90: como era e o que dizem que voltouVocê está aqui
- #019Tamanho de fora: como ler a etiqueta de marca dos EUA, da Europa e da China
- #018O que é fast fashion, e o que é slow fashion
- #017Roupa usada faz mal? O que se sabe sobre os medos em torno dela
- #016Moda dos anos 2000: o que é o Y2K e como ele aparece no brechó
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