Consignação e desapego #023
Como desapegar de roupas: por onde começar
Por onde começar a desapegar de roupas: o que pesquisas dizem de roupa parada no armário, um jeito de separar o que fica e o que sai, e os caminhos.

Por onde começar a desapegar de roupas? Pelo que você não usa mais, e não pelo que não gosta: tire do armário o que não veste e separe em três montes, o que fica, o que sai e o que ainda é dúvida. O destino do que sai, que pode ser vender, consignar ou doar, vem depois e é outra decisão.
Por que começar pelo que não é usado?
Porque é o critério que as pesquisas conseguem medir. A WRAP, uma instituição de caridade do Reino Unido que trabalha com resíduos e recursos, publicou em 2012 um relatório com uma pesquisa feita com 7.950 adultos britânicos, de 16 anos ou mais. O resumo do relatório diz que cerca de 30% das roupas do guarda-roupa médio não eram usadas havia pelo menos um ano, na maioria das vezes porque já não serviam.
Em 2022, a mesma instituição voltou ao assunto, com mais de 6 mil adultos que descreveram cerca de 45 mil peças. O adulto britânico médio tinha 118 peças, contando roupa íntima, meias e meia-calça, e 26% delas (31 peças) não eram usadas havia pelo menos um ano. Entre os motivos mais citados, três: a peça é só para ocasiões, não serve mais bem ou não é confortável, ou a pessoa gosta dela, mas ela não é prioridade. Saias (44%) e vestidos (43%) eram as peças com mais chance de estar no armário sem uso.
Ressalvas que valem para os dois números: são do Reino Unido, não do Brasil, e medem o que as pessoas declararam. As fontes consultadas para este guia não trazem uma medida brasileira de roupa parada no armário.
E o que fazem os brasileiros com a roupa que não serve?
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) ouviu mais de mil consumidores de todas as regiões, na Pesquisa Consumo Consciente de 2024. Na categoria roupas e acessórios, 66% disseram consertar ou reaproveitar as peças. Quando elas deixam de atender, 73% disseram doá-las a instituições de caridade. É comportamento declarado, e a reportagem consultada não informa o período da coleta. O número de 66% junta duas coisas, consertar e reaproveitar, e a nota não separa uma da outra. Isso sugere que muita gente dá um segundo uso à peça antes de se desfazer dela, mas é declaração, e não medição.
Para dar uma escala de fora: o Parlamento Europeu registra cerca de 12 kg de roupa descartada por pessoa por ano na União Europeia, e menos da metade das peças usadas é coletada para reúso ou reciclagem. É outro lugar e outro sistema de coleta, e a página não indica o ano de cada dado.
Um jeito de separar
Os passos abaixo são método sugerido por este guia, e não resultado de pesquisa. As perguntas vêm dos motivos que as pesquisas mediram:
- Usei no último ano? É a régua que a WRAP usou para chamar uma peça de parada. É régua de pesquisa, não regra.
- Serve hoje? Foi o motivo mais comum em 2012. Se não serve do jeito que o corpo está, a peça não é uma peça do armário de hoje.
- É só para uma ocasião? Foi um dos motivos de 2022. Se a ocasião existe e a peça serve, ela fica. Se a ocasião não vem, vale perguntar por quê.
- Está em condição de ir para outra pessoa? Peça com defeito não serve a quem vai receber. O guia de como preparar as peças para consignar tem um roteiro para conferir.
O monte da dúvida é permitido, e convém que tenha prazo: marque uma data para voltar a ele e decidir.
Outra sugestão do mesmo tipo: comece por uma gaveta ou por uma categoria, como casacos ou vestidos, e não pelo armário inteiro. As fontes não comparam métodos de arrumação, e este guia não afirma que um funcione mais que outro. O que elas mostram é o que fica parado e por quê, e é com isso que as perguntas acima trabalham.
O que este guia não afirma
- Que o armário brasileiro tenha a mesma fatia parada do britânico. Nenhuma fonte consultada mede isso aqui.
- Que um ano sem usar seja regra para desapegar. É a régua que uma pesquisa escolheu para medir.
- Que desapegar seja obrigação. As fontes descrevem o que as pessoas têm e fazem, e não o que deveriam fazer.
Para onde vai o que sai
São três caminhos, e eles não se excluem: a peça que um brechó não aceita ainda pode ser doada ou vendida de outro jeito. Cada um tem o seu guia:
- Vender. A peça sai por um valor, no caminho que você escolher: brechó que compra, internet ou entre conhecidos. O guia de onde vender roupa usada compara os caminhos e o que se publica de prazo e repasse.
- Consignar. A peça fica numa loja para ser vendida, e você recebe depois. O guia da consignação explica o que a lei diz e o que perguntar antes de deixar as peças.
- Doar. A peça passa a ser de outra pessoa, sem pagamento. O Código Civil chama de doação, no artigo 538, como o guia da consignação lembra. Antes de levar, vale perguntar à instituição o que ela recebe.
Pontos importantes
- Comece pelo que não é usado, e não pelo que não agrada: separe a roupa em três montes (fica, sai e dúvida) antes de pensar no destino.
- Numa pesquisa britânica de 2012, cerca de 30% das roupas do guarda-roupa estavam havia pelo menos um ano sem uso, na maioria das vezes porque já não serviam.
- Em 2022, a mesma instituição contou 118 peças por adulto no Reino Unido, e 26% delas sem uso havia pelo menos um ano. Não é retrato do Brasil.
- Em 2024, a CNC ouviu mais de mil consumidores brasileiros: 66% dizem consertar ou reaproveitar as peças, e 73% dizem doar a instituições de caridade.
- Depois de separar, os caminhos do que sai são vender, consignar ou doar, e cada um tem o seu guia.
Links de referência
- WRAP, Valuing our clothes: the true cost of how we design, use and dispose of clothing in the UK, 2012
- WRAP, Nation's wardrobes hold 1.6 billion items of unworn clothes, 2022
- WRAP, Citizen Insights: Clothing Longevity and Circular Business Models Receptivity in the UK, 2022
- Consumidor Moderno, Consumidores estão mais conscientes de seus hábitos de compra, aponta CNC, 05/08/2024
- Parlamento Europeu, Fast fashion: EU laws for sustainable textile consumption, publicado em 2020 e atualizado em 2025
- Foto de capa: RDNE Stock project, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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- Vender roupa usada: os caminhos e como o repasse variaBrechó que consigna, brechó que compra, internet ou entre conhecidos: os caminhos para vender roupa usada e o que as fontes publicam de prazo e repasse.
- Como funciona a consignaçãoComo funciona a consignação de roupas no brechó: o que a lei chama de contrato estimatório, o caminho da peça e o que perguntar antes de consignar.
Índice do blog
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- #027Moda dos anos 70: como era e o que ficou
- #026Para onde vai a roupa descartada: lixo têxtil, reciclagem e impacto da moda
- #025Brechó masculino: o que olhar ao comprar roupa de homem usada
- #024Moda dos anos 80: como era e o que ficou
- #023Como desapegar de roupas: por onde começarVocê está aqui
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