Guia do brechó #025
Brechó masculino: o que olhar ao comprar roupa de homem usada
Brechó masculino: o que olhar ao comprar roupa de homem usada. Etiqueta, tamanho, ombro, gola, manga, forro e caimento, com fontes técnicas.

Comece pela etiqueta, que traz a composição do tecido e o tamanho, e confira depois o que ela não diz: como o ombro assenta, se a gola do paletó encosta no colarinho da camisa, quanto da manga cobre o punho e como está o forro. O tamanho da etiqueta é só ponto de partida: o Inmetro não padroniza o que cada tamanho mede, e a norma da ABNT para roupa masculina é de uso voluntário. E "alfaiataria" nomeia um tipo de peça; não garante que ela tenha sido feita sob medida.
O que é alfaiataria, e o que o nome promete
Para o dicionário Aulete, alfaiate é o costureiro que faz roupas de corte masculino, como paletós e terninhos. O e-book de modelagem masculina da UDESC, de 2023, feito para o curso de Moda, define a alfaiataria, a partir de Hopkins (2013), como o ato de talhar e coser tecidos para roupas masculinas, geralmente com técnicas artesanais e sob medida, levando em conta as medidas de cada cliente.
O mesmo material dá os nomes das peças. Traje é o conjunto de paletó e calça do mesmo tecido. Terno, no sentido que o texto adota, tem três peças: paletó, colete e calça.
E faz uma distinção que interessa a quem compra usado. A indústria do pronto para vestir já oferece trajes de alfaiataria em larga escala, mas, segundo os autores, eles não se equiparam aos da alfaiataria artesanal, nem no trabalho manual nem na modelagem. Ou seja, "alfaiataria" descreve o tipo da peça; "sob medida" é outra informação.
A etiqueta: composição e tamanho
Pela regra do Inmetro, a etiqueta de um produto têxtil traz o nome das fibras e o conteúdo de cada uma em percentual, os cuidados de conservação e a indicação de tamanho. A cartilha do instituto, de 2021, dá o exemplo de "50% de algodão, 35% de poliéster". Em paletó, a composição diz de que o tecido é feito. Não diz como ele cai.
Sobre tamanho, a mesma cartilha é direta: não há regulamentação do Conmetro nem do Inmetro sobre a padronização de tamanhos e sobre a forma de indicá-los. Qualquer indicação é aceita, com as medidas no Sistema Internacional de Unidades.
Os símbolos de cuidado e o que fazer quando a etiqueta saiu estão no guia como lavar roupa de brechó. O guia de tamanhos, GG equivale a que número, mostra por que a letra de uma marca não vale para outra.
Como o tamanho masculino aparece
Segundo o material da UDESC, as tabelas de medidas usam nomes de tamanho como P, M e G ou números como 38, 40 e 42. As tabelas didáticas do próprio e-book ligam a camisa social a uma medida de pescoço e de colarinho, em centímetros, e a calça, à cintura e ao quadril. São tabelas dos autores, para ensino, e não as de uma marca.
Para roupa masculina existe uma norma da ABNT, a NBR 16060, de 2012, sobre vestibilidade para homens de corpo tipo normal, atlético e especial. Ela tem uma lógica própria: classifica o corpo, não a roupa. O material da UDESC resume os três tipos:
- atlético, quando a medida do tórax é maior que a da cintura;
- normal, quando tórax e cintura são iguais ou muito próximos;
- especial, quando a cintura é maior que o tórax.
Segundo o mesmo material, o sistema de indicação de tamanho da norma é baseado em padrão corporal, e não nas medidas da roupa, e o uso da norma é voluntário.
Duas ressalvas. O texto da norma é vendido pela ABNT e não foi lido para este guia: o que está aqui vem do material da UDESC. E a ficha da norma, no catálogo consultado, traz ao mesmo tempo o rótulo de vigente e um aviso de cancelamento, então a situação atual da NBR 16060 não ficou clara.
Numa peça usada, não dá para contar que a etiqueta diga para que tipo de corpo ela foi cortada. Isso é inferência. O que resta é medir, e o guia de tamanhos explica como usar uma peça que veste bem como régua, o que vale para paletó e para calça.
Ombro, gola e manga: três conferências
O e-book da UDESC reúne regras de referência para o paletó clássico. Elas servem de roteiro de prova, com duas ressalvas: vêm de um material didático, e não de lei, e o terno de corte mais justo mudou algumas delas. O próprio texto registra, para o terno slim, mangas mais coladas e cerca de 1 cm mais curtas e comprimento cerca de 2 cm menor.
- Ombro. As ombreiras ultrapassam o ombro de um a dois centímetros, o que permite que a manga caia suavemente, sem formar rugas.
- Peito. Ao fechar o paletó, não devem se formar dobras na lapela: ela cai livremente.
- Gola. O degolo do paletó deve ter só 1 cm a mais que o da camisa. Muita folga entre o colarinho e a gola do paletó indica, segundo o material, modelagem malfeita.
- Manga. A camisa social deve cobrir todo o punho, e a manga do paletó fica 1 cm acima dele, deixando aparecer uma pequena parte da camisa.
- Comprimento. Com o braço estendido ao longo do corpo, o paletó termina perto da junta do polegar. O material avisa que quem tem braço muito longo ou muito curto não segue essa referência.
- Calça. Na modelagem clássica, o vinco desce reto e a calça cai sem sobras; o comprimento cobre as meias e toca levemente os sapatos.
Duas dessas conferências, a gola e a manga, comparam o paletó com a camisa. Por isso, provar com uma camisa por baixo é o roteiro mais fiel às regras. Isso é inferência a partir do texto.
O material lembra ainda que, a partir dos anos 1980, o terno perdeu as ombreiras e ficou menos estruturado. Ombreira marcada tende a indicar peça anterior a essa mudança. Isso também é inferência.
Forro e entretela: o que há por dentro
O Aulete define forro, no vestuário, como o material, de tecido ou de enchimento, que cobre uma peça de roupa por dentro ou por fora, como no forro do paletó. Define entretela como o tecido mais grosso colocado entre o forro e o tecido externo, para dar mais corpo.
Segundo o e-book da UDESC, o forro do paletó serve para esconder costuras e partes internas e para evitar que o tecido externo repuxe com o movimento do corpo. Por isso, o molde do forro é maior que o da parte externa e não leva pences. O material afirma que trajes e ternos são sempre forrados.
Sobre a entretela, o e-book traz uma recomendação de conservação: o paletó deve ser lavado a seco, porque as entretelas correm o risco de soltar na lavagem convencional. O que vale para a sua peça é o que a etiqueta de cuidados indica.
Um trabalho de conclusão de curso de Design da UFPE, de 2022, que cita Nordheim (2012), descreve três jeitos de entretelar um blazer: com tela de crina em toda a frente, com tela de crina em metade dela e entretela fusionada no resto, ou só com entretela fusionada, a termocolante da indústria em série. Segundo o trabalho, as fusionáveis alteram a estrutura, o caimento e a qualidade do tecido. As fontes consultadas não ensinam a reconhecer cada tipo numa peça usada, e este guia não vai além disso.
Tecido e caimento
A composição está na etiqueta. O que o tecido faz depois de cortado e costurado é o que o Aulete chama de caimento: a forma como o tecido pende por causa do próprio peso, da consistência e da flexibilidade, e também o modo como a peça se ajusta ao corpo.
O material da UDESC dá duas referências para quem compra peças que podem ter sido separadas. Em tecido listrado, as listras da gola acompanham as do resto do casaco, em sequência. E o tecido da calça deve ter caimento semelhante ao do blazer, para não desvalorizar o visual. A mesma fonte afirma que a precisão das medidas pode fazer toda a diferença no caimento da roupa.
Caimento, portanto, não se lê na etiqueta. Fica para o espelho.
O que este guia não afirma
- Que uma peça de alfaiataria usada seja melhor ou pior do que uma de confecção em série. As fontes descrevem diferenças de método, e não medem durabilidade.
- Que as regras de ombro, gola e manga valham para toda peça. São referências de um material didático, para o paletó clássico, e não servem de régua para jaqueta, malha, jeans ou roupa esportiva.
- Como reconhecer, numa peça usada, se a entretela é solta ou fusionada.
- A situação atual da NBR 16060 e o conteúdo das tabelas dela.
Pontos importantes
- A etiqueta traz a composição, com o percentual de cada fibra, e o tamanho. O Inmetro não padroniza tamanho: qualquer forma de indicar é aceita.
- Alfaiataria é o ofício de cortar e coser roupa masculina, em geral sob medida. Terno de confecção em série não se equipara ao artesanal, diz a UDESC.
- A NBR 16060 (2012) trata do tamanho masculino por tipo de corpo: atlético, normal e especial. O uso é voluntário e a situação atual é incerta.
- Referências da UDESC para o paletó: ombreira 1 a 2 cm além do ombro, degolo 1 cm maior que o da camisa, manga 1 cm acima do punho.
- O forro esconde costuras e evita que o tecido externo repuxe. A entretela dá corpo, e a UDESC manda o paletó para a limpeza a seco por causa dela.
- Caimento é a forma como o tecido pende e como a peça se ajusta ao corpo (Aulete). Não se lê na etiqueta: depende de prova.
Links de referência
- UDESC, Modelagem de vestuário masculino, e-book do curso de Moda, Silveira, Rosa e Lopes, 2023
- Inmetro, cartilha Produtos Têxteis, 2021
- Target Normas, ficha da ABNT NBR 16060:2012, vestibilidade para homens
- Aulete Digital, verbete alfaiate
- Aulete Digital, verbete forro
- Aulete Digital, verbete entretela
- Aulete Digital, verbete caimento
- Santos, Técnicas de alfaiataria: um experimento utilizando as melhores técnicas para o blazer, TCC de Design, UFPE, 2022
- Foto de capa: David Bartus, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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