Moda circular: dados e mercado #018
O que é fast fashion, e o que é slow fashion
Fast fashion e slow fashion pelo ritmo de produção e pela vida útil da peça, com uma revisão científica de 2020 e o texto de Kate Fletcher, de 2007.

Fast fashion é o modelo em que a roupa nova chega às lojas num ritmo curto, com novidade frequente, preço baixo e uso curto da peça. Slow fashion, na definição de Kate Fletcher, de 2007, não é o oposto de rápido: é uma abordagem baseada em qualidade, em que quem projeta, vende e compra sabe mais dos efeitos de cada peça sobre trabalhadores, comunidades e ecossistemas. Este texto separa os dois pelo que se produz, em que ritmo e com que vida útil, e diz onde a revenda entra.
O que é fast fashion?
A revisão de Kirsi Niinimäki e colegas, publicada em 2020 na Nature Reviews Earth & Environment, descreve a fast fashion como a oferta de novidade frequente, em produtos de preço baixo e guiados por tendência. O modelo se apoia em manufatura barata, consumo frequente e uso curto da peça, e depende de consumo recorrente e de compra por impulso.
Dois números da mesma revisão dão a medida do ritmo. As marcas lançam hoje quase o dobro das coleções que lançavam antes de 2000, quando o fenômeno começou, e a produção têxtil mundial por pessoa passou de 5,9 kg para 13 kg por ano entre 1975 e 2018.
Quantas coleções por ano? Depende de quem conta. Um artigo brasileiro de 2023, na revista Veredas do Direito, define a fast fashion pelo intervalo curto entre criar, produzir, distribuir, vender e consumir, e cita autores que falam em três a cinco coleções por ano (2016) e, em algumas varejistas, em coleções semanais (2019). Este texto não escolhe um número.
O relatório de 2017 da Fundação Ellen MacArthur, base do texto sobre moda circular, usa os mesmos elementos: giro mais rápido de modelos novos, mais coleções por ano e, muitas vezes, preços menores. Já em 2007, Fletcher descrevia uma fabricação capaz de transformar um croqui em peça pronta em 12 dias.
E a vida útil da peça?
Aqui as fontes abertas são mais frágeis, e vale dizer isso. O que a revisão de 2020 traz é a vida útil da roupa em geral: três tipos de peça (camiseta, camisa de malha com gola e calça de tecido), em seis países (China, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos), tiveram média de 3,1 a 3,5 anos de uso por peça, com variação grande entre os países. É um retrato da roupa de modo geral, não só da fast fashion.
Para a fast fashion em particular, o relatório de 2017 estima que mais da metade da produzida é descartada em menos de um ano. É uma estimativa que o próprio relatório atribui a um estudo da McKinsey de 2016, não uma medição.
E o slow fashion?
Em 2007, Kate Fletcher definiu o termo num artigo na revista The Ecologist. Para ela, slow fashion é projetar, produzir, consumir e viver melhor, e não se mede pelo relógio: é "not time-based but quality-based", nas palavras dela, que admite alguns componentes de tempo. Também não é o oposto de fast fashion. É uma abordagem em que quem projeta, vende e compra tem mais consciência do efeito das peças sobre trabalhadores, comunidades e ecossistemas.
A ideia vem emprestada do Slow Food, movimento fundado por Carlo Petrini, na Itália, em 1986. Entre os pontos da proposta de Fletcher estão comprar menos peças, de maior valor, e dividir de modo mais justo o preço ao longo da cadeia.
O artigo brasileiro de 2023 liga o conceito ao slow design: peças duráveis, que atravessam mais de uma estação, e transparência sobre a origem dos materiais e da mão de obra. O mesmo texto registra duas críticas: marcas que usam o rótulo para lucrar sem compromisso ambiental real e preços mais altos que deixam muita gente de fora.
Duas definições, dois eixos
- Fast fashion mede-se por ritmo e volume: ciclo curto entre criar e vender, coleções frequentes, preço baixo, uso curto.
- Slow fashion mede-se por qualidade e cadeia: durabilidade, transparência sobre a origem, relações mais longas entre quem faz, vende e veste.
Por isso "slow" não é simplesmente "devagar". A própria Fletcher diz que a base é a qualidade, e não o tempo, ainda que com alguns componentes de tempo.
Onde entram o brechó e a revenda?
Os dois documentos que apontam saídas convergem num ponto: o número de usos. A revisão de 2020 pede menos compras e peças que durem mais. O relatório de 2017 diz que aumentar o número de vezes que a roupa é usada é a alavanca mais direta e cita modelos de revenda para a roupa usada que ainda dura.
Inferência nossa: a revenda age sobre a mesma variável. Ela não muda como a peça foi feita. Uma peça de fast fashion revendida continua sendo uma peça de fast fashion, usada por mais tempo e por mais de uma pessoa. Por isso brechó não é sinônimo de slow fashion: slow fashion descreve o projeto e a produção; o brechó, o caminho da peça depois de comprada. Uma mesma peça pode ser as duas coisas, feita devagar e revendida.
O que acontece quando a roupa deixa de ser usada, com números do Brasil, está em para onde vai a roupa descartada.
O que este texto não afirma
- que exista uma contagem oficial de coleções por ano: as fontes variam;
- que o rótulo "slow" garanta alguma coisa: o artigo brasileiro de 2023 registra uso do termo para lucro, sem compromisso real;
- a vida útil média de uma peça de fast fashion: a estimativa que circula, de mais da metade descartada em menos de um ano, é de uma consultoria, de 2016, citada pelo relatório de 2017;
- que programas de recompra, em que a própria marca compra de volta a peça usada, façam diferença: nenhuma fonte aberta aqui os mede;
- que comprar de um modelo ou do outro diga algo sobre a pessoa: as fontes descrevem modelos de produção, não pessoas.
Pontos importantes
- Fast fashion é o modelo de novidade frequente, preço baixo e uso curto da peça, segundo uma revisão científica de 2020.
- Segundo a revisão, as marcas lançam quase o dobro das coleções de antes de 2000, e a produção têxtil por pessoa foi de 5,9 kg para 13 kg ao ano (1975 a 2018).
- Para Kate Fletcher (2007), slow fashion não é questão de tempo nem o oposto de fast fashion: é uma abordagem de qualidade e de consciência dos efeitos da peça.
- O número de coleções por ano depende da fonte: um artigo brasileiro de 2023 cita de três a cinco (2016) e, em algumas varejistas, coleção semanal (2019).
- A revenda age sobre a mesma variável que a literatura aponta, o número de usos. Uma peça de fast fashion revendida continua sendo fast fashion.
- Brechó não é sinônimo de slow fashion: slow descreve como a peça é projetada e feita; o brechó, o caminho dela depois de comprada.
Links de referência
- Niinimäki et al., The environmental price of fast fashion, Nature Reviews Earth & Environment, 2020 (texto aberto, Aalto University)
- Kate Fletcher, Slow fashion, The Ecologist, 2007
- De Gregori e Maier, O modelo de produção fast fashion na ótica da sustentabilidade, Veredas do Direito, 2023
- Ellen MacArthur Foundation, A new textiles economy: Summary of findings, 2017
- Foto de capa: Nksingh Singh, Pexels
Confira os links de referência. O blog do Brechó Oficina busca divulgar informação a partir de fontes confiáveis.
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